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quarta-feira, 1 de maio de 2013

o artista não está presente...

Tino Sehgal e seus voluntários performers; acima, registros da obra "These Associations", em cartaz na Tate Modern de Londres no ano passado.
Tino Sehgal é o exemplo mais bem acabado, na minha opinião, do que significa ser um artista no topo da cadeia econômica e criativa da arte contemporânea. Sua obra representou a Alemanha na Bienal de Veneza de 2005, a bienal de maior relevância em termos de chancela crítica da atualidade; entre as inúmeras exposições individuais feitas por Tino recentemente, destaca-se a obra "This Progress", em cartaz em 2010 no Museu Guggeinheim de Nova York; além disso, ele foi escolhido para fazer parte da Documenta XIII, evento que se realiza de 5 em 5 anos na cidade de Kassel na Alemanha, o qual ocupa a cidade toda com a vanguarda da vanguarda da arte contemporânea e suas conexões com releituras do passado (em Kassel, Tino apresentou "This Variation", no porão de um hotel). No ano passado, foi a vez da Turbine Hall da Tate Modern em Londres, com "These Associations". E, ontem, Tino foi um dos artistas anunciados na lista de 4 concorrentes ao Turner Prize, o mais importante prêmio de arte contemporânea do Reino Unido, e um dos mais badalados do mundo das artes. Em resumo, Tino Sehgal está na crista da onda, no ápice. 

No entanto, o mais intrigante em tudo isso é nos voltarmos para o trabalho de Tino Sehgal, para seu suporte, seu conceito. Como uma obra foi capaz de conquistar tantos símbolos de reconhecimento do mercado e da crítica internacionais sem ser passível de aquisição, seja por um acervo de museu ou coleção particular?

Tino Sehgal trabalha na fronteira entre performance, teatro e dança, recrutando voluntários que atuam no espaço entre regras demarcadas e improviso. Nada mais intangível. Na Documenta XIII, bastava o visitante seguir um mapa para se deparar com o Grand City Hotel Hessenland. A cada 2 horas, no porão do prédio, "This Variation" acontecia. O espectador adentrava um ambiente completamente escuro e, aos poucos, acostumava-se à atmosfera ao redor. Havia sons, barulhos, vocalises e histórias sendo contadas por indivíduos que já estavam ali dentro. Havia movimentos coreografados, corridas, paradas bruscas, aproximações inesperadas junto ao público. Ao final, as luzes acendiam-se completamente: 20 performers voluntários cantavam Good Vibrations dos Beach Boys, enquanto saíam por uma porta lateral. Puff, fim da obra. E começo de outra. Quem eram os espectadores e os agentes da obra de arte: público ou performers? Ambos? Uma obra que se dava à fruição por conta da experiência coletiva do momento e, a posteriori, pelas memórias que se formaram em cada um dos participantes, nas emoções suscitadas. 

Com "These Associations" não foi diferente. O grande salão industrial da Turbine Hall da Tate Modern não era ocupado por nenhuma instalação gigantesca, nem por esculturas ou conjunto delas. Havia apenas pessoas, parte deles um grupo de uma dezena que se movimentava feito um cardume de peixes - aglutinava-se em movimentos febris e separava-se a esmo repentinamente. Nesse movimento de dispersão, os "artistas" abordavam o público com depoimentos íntimos os mais variados, "minha irmã está se recuperando de um câncer", "minhas histórias de amor foram um fracasso", "sofro de claustrofobia", "foi um choque minha chegada à Inglaterra". Viam-se alguns espectadores retornarem esses depoimentos com os seus próprios. Diálogos estabeleciam-se, mas não eram obrigatórios que acontecessem. E então o cardume voltava a se movimentar pelo salão, em movimentos aleatórios, ao som de algum oratório clássico. 

Não posso escrever aqui a minha impressão pessoal sobre a obra de Tino Sehgal. Nunca estive em uma delas, só soube dessas experiências a partir de artigos de jornal, de críticos, de depoimentos de outros. Em comum, a pulga atrás da orelha, o gatilho puxado, "por que fiquei tão mexido com uma experiência aparentemente tão banal?" Afinal, não há obra de arte, no sentido estrito do termo, na obra de Sehgal. Há um compartilhamento de emoções, há uma experiência, uma vivência coletiva, já que não se pode falar também num espetáculo de teatro ou de dança, no sentido convencional. O suporte e a técnica desses experimentos são pessoas e a interação entre elas. Só. Um embaçamento da fronteira do que é considerado arte que produz o combustível mais potente para as turbinas da arte contemporânea: ser, simultaneamente, questionável e encantador. 
(abaixo, registro em vídeo de "these associations"...).

quarta-feira, 24 de abril de 2013

contemporâneo, que é do mesmo tempo de, que é concomitante, que é do nosso tempo...


Depois de apresentar os novos desdobramentos do seu trabalho, Juliana* levantou uma questão para nós da turma de 3a. do grupo de acompanhamento de artista: como eu faço para que meus alunos se interessem por arte contemporânea? Ela tem um ateliê onde ensina desenho, pintura, mas pensa em ir mais a fundo, em mostrar a seus alunos a relevância e a potência da arte feita nos tempos de hoje para quem, numa caracterização clichê, tem como parâmetro de arte a pintura acadêmica figurativa. 

Uma outra colega nossa, Paula, mencionou que sua professora de história da arte, na faculdade, começava o curso de trás para frente, abordando primeiro a arte contemporânea em seus vários aspectos, para depois adentrar a linha do tempo histórico. A justificativa para sua metodologia: o que é produzido no tempo presente nos é muito mais próximo; levanta proposições e suscita reflexões sobre nossas experiências atuais, sobre nossa percepção do ambiente que nos cerca. Apesar de acharmos aparentemente ininteligível, difícil, conceitual demais, mercadológico demais, gráfico demais, rápido demais. Apesar de todos esses senões, o leque variado de meios, suportes e conteúdos da arte contemporânea nos trazem questões basilares, imutáveis, que têm a ver com o fazer artístico, com as fronteiras da arte e suas novas linguagens, e com a constante renovação do pacto poético entre artista e público. 

Vejo uma analogia com o cinema brasileiro dos dias de hoje. As produções atuais, umas mais blockbusters, outras, mais autorais, refletem mudanças em relação ao passado. Ou melhor, refletem uma conexão com o que vivemos atualmente, seja a onda de comédias com elenco global e temas ligados a novos padrões de comportamento vividos pela sociedade brasileira, seja a safra recente de realizadores em busca de uma reflexão crítica - de linguagem inclusive - sobre as peculiaridades e mazelas do Brasil do presente. É claro que não há descarte do passado, do legado da história do cinema nacional. O ponto é que muita coisa ficou anacrônica, como as chanchadas, ou mesmo certa obrigatoriedade de filiação com o Cinema Novo ou o Cinema Marginal. Vínculos e inspirações continuarão a existir, porém eles se renovam na medida em que o compromisso é a comunicação com o público que vive o seu hoje. É uma vontade culturalmente natural - e saudável - de retratarmos e sermos retratados nesse presente, assim como os mercadores burgueses do renascimento holandês também o queriam naquele tempo. Ou a arte sacra em seu apogeu, como meio de fortalecer os laços entre igreja e seus seguidores.

Adiantando o futuro, mesmo que breve, estreia dia primeiro de maio, próxima quarta-feira, o documentário "Doméstica", de Gabriel Mascaro. Sete adolescentes tiveram como missão registrar por uma semana a sua empregada doméstica e entregar o material bruto para o diretor realizar, por meio da montagem desses registros, um filme. Entre o choque da intimidade, as relações de poder e os afazeres do cotidiano, o que está em jogo é um olhar contemporâneo sobre o trabalho doméstico no ambiente familiar, num contexto  mais atual impossível das recentes mudanças do marco regulatório brasileiro referente a esse tipo específico de relação trabalhista. 

"Doméstica" vem a público embebido em polêmica, em meio ao debate ideológico que permeia essa questão no Brasil. Muitos dirão que se trata de oportunismo e de violência à integridade dos personagens retratados; outros,  que se trata de um contundente ensaio sobre afeto e relações de poder, uma mistura indistinta em nosso país. Hoje e desde há muito tempo. O olhar é que se atualiza. 
*os nomes são fictícios

quarta-feira, 17 de abril de 2013

a inoculação do tempo...

Pintura da série "Today", de On Kawara.
Obra em processo de On Kawara, "One Million Years": acima, o livro com a marcação dos anos para frente e para trás no tempo; abaixo, o registro em audio, na XI Documenta de Kassel, feito por um casal dentro de uma cabine de vidro instalada na rua.
Postais da série "I got up".
Além da sua própria data de nascimento, de quais outras datas marcantes da sua trajetória de vida você se recorda? Quais ainda marcarão? Você fará o registro delas em sua memória? Você consegue avaliar quantos fatos históricos importantes, quantas conquistas tecnológicas ou quantas mudanças sócio-econômicas ocorreram nos últimos séculos? E nos séculos que estão por vir? A que horas você costuma acordar? Sua família, seus amigos, sabem exatamente como você está, como se sentiu hoje?

Nasci em 2 de janeiro de 1968; meu pai morreu em 19 de outubro de 1987; eu me casei em 3 de agosto de 1996; no entanto, me apaixonei por um sorriso em 17 de junho de 2004; minha mãe irá completar 85 anos em 18 de novembro deste ano. Confesso ter uma grande facilidade com datas; talvez porque me sinta mais confortável no mundo com a parametrização do tempo. Tenho necessidade de sentir o tempo em diferentes registros, incluindo o puramente cronológico.

Hoje, dia 17 de abril de 2013, meu amigo Rodrigo Isaias me mandou uma mensagem logo pela manhã, às 9h34. Perguntava quem havia sido o artista - ele sabia que era japonês - autor de uma série de telegramas ao seu galerista holandês com os dizeres "I'm still alive", como que para deixar marcado, mesmo que por meio do suporte efêmero do telegrama - era 1970 - a sua existência. Para que ele, quem enviou os telegramas, não fosse esquecido (Rodrigo ainda me contou na mensagem que essa conversa havia surgido numa discussão com uma amiga dele, em que falavam sobre a contradição, hoje em dia, de sermos alguém diferenciado, numa época de redes sociais e reality-shows, em meio a uma dinâmica de homogeinização e banalização de comportamentos e identidades).

Respondi a ele, alguns minutos depois, que o artista a que ele se referia chama-se On Kawara, nascido no mesmo dia que eu, 2 de janeiro, em 1933, em Kariya, Japão. De 23 de março a 19 de setembro de 2011, a obra de Kawara, "I'm still alive" inspirou uma mostra no MoMA de Nova York, em que a ideia de quotidiano e de existência fugaz, porém distinta e única de todo e qualquer indivíduo, era o fio condutor. 

Além de "I'm still alive", Kawara produziu pinturas da série "Today", na qual, a depender do país, ele representava, nas línguas oficiais, o dia, o mês e o ano da execução da pintura. Houve os cartões-postais enviados para os amigos, da série "I got up", em que ele enviava diariamente, por um certo período, postais com a hora em que havia acordado naquele dia. E a obra mais extensa de Kawara, "One Million Years", iniciada em 1969, depois continuada em 1993, e mais tarde na XI Documenta de Kassel, em 2002, na qual, numa cabine de vidro, um homem e uma mulher registram em audio, um após o outro, um ano para frente e um ano para trás - e assim sucessiva e respectivamente - até atingir, numa linha cronológica do tempo, um milhão de anos no futuro e outro milhão no passado (não tenho noção de quanto tempo já foi percorrido nesse registro).

O vídeo abaixo narra a continuidade do projeto "One Million Years" na galeria David Zwirner de Nova York, em exibição até 14 de fevereiro de 2009, mostrando a lógica de funcionamento da obra. É pura arte conceitual, em relação à qual muita gente faz suas ressalvas. Compreensível, na medida que fomos educados, visualmente, por intermédio das belas-artes - pintura, escultura, sobretudo - e pouco acostumados a uma arte que se trasmite por uma ideia, um conceito, que se materializa por meio da palavra, de números, ou ainda de um registro de voz. 

Se um quadro ou uma escultura são suportes que carregam consigo não apenas uma plasticidade visual, mas também uma durabilidade, uma possibilidade de apreciação mais sensorial e menos racional, além de poder ser "adquirida", como lidar com a fruição estética de um conceito? Quanto vale uma ideia, ou um conjunto de signos que compõem uma ideia, um conceito? São expansões da arte contemporânea que fazem sentido dentro de um contexto histórico, e dentro de uma proposta coerente de uma poética de artista. Caso de Kawara, cuja obra eminentemente conceitual permitiu com que hoje, 17 de abril de 2013, às 9h34 da manhã, meu amigo Rodrigo entrasse em contato comigo, para compartilhar uma questão, que acabou por se desdobrar neste post, o 113o. do blog, finalizado às 22h56, horário de Brasilia. Até aqui, eu sigo vivo...

segunda-feira, 15 de abril de 2013

a pinacoteca do estado de são paulo...

Fachada da entrada da Pinacoteca do Estado de São Paulo: o projeto de Paulo Mendes da Rocha deslocou para a lateral do prédio o acesso do público ao interior do museu.
Ontem o dia estava nublado, chuvoso até. Fazia frio. E a Pinacoteca estava cheia de gente. Grupos de estudantes que faziam visitas guiadas com os monitores do "educativo"; muitos estrangeiros - visível o aumento do fluxo de estrangeiros não mais apenas a passeio em São Paulo, mas, de fato, instalando-se por aqui -, mais um punhado de gente esparsa que, se fosse feita uma pesquisa, saberíamos que se trata de um público relativamente recente a frequentar espaços culturais e museus como a Pinacoteca do Estado de São Paulo.

Museu de arte mais antigo da cidade, com uma vasta e consistente coleção de arte brasileira abrangendo, na linha do tempo, desde o século XIX até os dias de hoje, a Pinacoteca ocupa o prédio da ex-sede do Liceu de Artes e Ofícios, projetado pelo escritório do arquiteto Ramos de Azevedo. Na década de 90, esse prédio sofreu uma ampla reforma, um extenso e detalhado projeto de Paulo Mendes da Rocha que modernizou e amplificou todo o espaço, desde a fachada, o acesso do público, até a iluminação e o display interno das salas de exposição, reserva técnica, escritórios, café. 

Mesmo que você não se informe de antemão sobre o que está em exibição na Pinacoteca, visitá-la é um programa cultural per se. Só andar pelo espaço interno, as galerias vazadas, as passarelas, o octógono central, voltado para a arte contemporânea, já vale o deslocamento.

Outro grande destaque é o acervo de pinturas e esculturas, em exibição permanente. O modo de exibição desse acervo - sobretudo as pinturas - é didático e muito bem-sucedido em mostrar os gêneros consolidados da técnica pictórica ao longo da história da arte - natureza-morta, marinhas, retratos e autorretratos, cenas históricas e quotidianas, iconografia regional, mitologia greco-romana e bíblica - e como eles foram apropriados pelos pintores brasileiros. É possível visualizar a variedade e qualidade da pintura brasileira exercitada em cada um desses gêneros, a influência das belas artes européias e, acima de tudo, o desenvolvimento de um vocabulário e sintaxe próprias.  (destaco, aqui, Almeida Júnior, Pedro Alexandrino, Oscar Pereira da Silva e Antonio Parreiras, artistas que viveram e trabalharam na cidade de São Paulo). 

De exposições temporárias, temos a instalação-coleção Fabíola, do belga radicado no México, Francis Alys; uma mostra de 30 obras de Sérgio Sister, incluindo suas séries mais recentes de caixas e ripas-molduras; uma seleção de fotografias do dominicano Natálio Puras penzo, aka Apeco; o artista português Vasco Araújo; e uma perspectiva da produção artística de presos políticos na época da ditadura militar no Brasil, denominada "Insurreições". Muita coisa. Variada, crítica, um caleidoscópio bem selecionado que demonstra a vocação plural da Pinacoteca, e seu compromisso com a formação de público, com a arte contemporânea, o intercâmbio cultural e a contextos críticos do fazer artístico. 

Termino com fotos do acervo de esculturas (sei o que muitos vão dizer, já está mais do que na hora de ter uma máquina decente e parar com essas fotos de celular...).
"Gazela", de Eugênio Pratti (1889-1979), bronze, sem data.
"Autorretrato", de Amadeu Zani, 1869-1944, bronze, 1931.
"Sem Título", torso de Victor Brecheret, 1894-1955, bronze, 1930.
"Dois Nus Femininos Entrelaçados", de João Pedrosa, 1915-2002, bronze,  1940/1989.
"Sem Título", de Amilcar de Castro, 1920-2002, aço bruto, 2000.
"Guanabara", de Alfredo Ceschiatti, 1918-1989, bronze, 1969.
"Atleta em Descanso", de João Batista Ferri, 1896-1978, granito rosa, sem data.
"Prometeu Acorrentado", de Bruno Giorgi, 1905-1993, bronze, sem data.
"Homem Andando", de Ernesto de Fiori, 1884-1945, bronze, cerca de 1945.
"Leda", de Lélio Coluccini, 1907-1983, bronze, 1950.
"Apóstolo São Paulo", de Décio Villares, 1851-1931, bronze, sem data.
"Eva Mulata", de Ottone Zorlini, 1891-1967, pedra serena toscana, sem data.
"Moema", de Rodolfo Bernardelli, 1852-1931, bronze, 1895/1998.
"Sapho", de Leopoldo e Silva, 1879-1948, mármore, c. 1915.
"Primavera", de Raphael Galvez, 1907-1998, gesso, 1939.
"O Brasileiro", de Raphael Galvez, 1907-1998, gesso, 1940.
"O Homem que Anda sobre a Coluna", de Auguste Rodin, 1840-1917, bronze, 1877.

sábado, 13 de abril de 2013

sete dias no mundo da arte...

A historiadora da arte e socióloga canadense Sarah Thornton e seu livro "Sete Dias no Mundo da Arte".


Obra do artista italiano Maurizio Cattelan, denominada "Cavallo  in Tassidernia", hoje no Museu de Arte Moderna de Frankfurt, e capa da edição brasileira do livro de Sarah Thornton (muito bem escolhida, por sinal, pois a obra de Cattelan é muito representativa da ambivalência do mundo da arte contemporânea, flertando entre a provocação, o mau-gosto e o embuste).

Por que o mercado de arte sofreu um aquecimento sem igual na última década e meia? Por que obras de arte, sobretudo as contemporâneas, atingem cifras milionárias em leilões? Qual o papel da crítica, dos curadores e museus, dos prêmios, das feiras e bienais, da relação entre galeristas (ou marchands) e artistas? De uma outra perspectiva, por que o mundo da arte tem se tornado tão popular, acessível na mídia, também por meio de uma programação cada vez mais variada e extensa de exibições nas grandes cidades, num número crescente de galerias, artistas e publicações a respeito?

A socióloga e historiadora da arte canadense Sarah Thornton se debruçou sobre todas essas questões em seu livro "Sete Dias no Mundo da Arte: Bastidores, Tramas e Intrigas de um Mercado Bilionário", no Brasil, publicado pela Agir. 

Analogamente a seus primeiros livros, sobre cultura da noite - raves, boates e nightclubs - e cultura de rua, Thornton, como uma observadora ativa, participa, durante alguns dias, de sete etapas fundamentais da cadeia produtiva do mundo da arte contemporânea. A visita, junto com dois marchands e curadores da Califórnia, ao atelier do escultor japonês Takashi Murakami, para conferir a produção de uma escultura monumental de cinco metros, chamada "Oval Buddha", a ser exibida numa retrospectiva do artista no Museu de Arte Contemporânea de Los Angeles; um leilão de arte da Christie's de Nova York; a participação na principal feira de arte contemporânea do mundo, na Basiléia, na Suíça, a Art Basel; a passagem pela prestigiosa escola de artes norte-americana, o California Institute of the Arts; o acompanhamento da entrega do cobiçado prêmio Turner na Tate Gallery de Londres; a produção da Artforum, a mais importante publicação de textos críticos do mundo da arte; e, por fim, juntou-se aos experimentos estéticos e às vanguardas contemporâneas apresentadas na Bienal de Veneza, um dos cenários de respiro e renovação das poéticas artísticas. 

Por meio de entrevistas e depoimentos de atores-chave no mercado e mundo da arte, assim como de sua própria observação crítica, Thornton elaborou uma crônica irônica e inteligente sobre a complexa dinâmica desse sistema. Um sistema que, se por uma lado, atrai a cobiça de especuladores, colecionadores, galeristas e instituições culturais, também chama de forma crescente a atenção do público em geral. Afinal, estamos mais educados e informados; estamos lendo menos e vendo mais (youtube, internet, revistas de moda, de design, e afins); e a arte é uma espécie de idioma universal, como a música, abrangente em sua fala e, mais ainda, permissiva em suas influências. 

Depois que a separação entre arte erudita e popular desfez-se e que o papel do curador e do galerista, mais do que o do crítico, tomaram uma preponderância fundamental na inserção e valorização da obra de um artista contemporâneo no mercado, a visão "senso comum" do mundo da arte acirrou sua conotação de embuste, de artificialidade, de truque, egos e, como propósito final, o fazer dinheiro. Thornton não fecha os olhos para isso. Muito pelo contrário. Sua grande contribuição, no entanto, diz respeito mais a um mundo que funciona segundo regras muito peculiares e próprias - algumas delas totalmente afinadas às do capitalismo moderno -, mas que têm em sua raiz a criação artística, de ideias e formas, em torno da qual há camadas de pessoas excêntricas, cultas, outras anacrônicas, e outras ainda deslumbradas e superficiais, todas eles - artistas, curadores, galeristas, críticos, colecionadores, jornalistas, leiloeiros, designers, produtores - compondo um mundo complexo e, sem dúvida alguma, fascinante. 

quinta-feira, 11 de abril de 2013

rumos da pintura figurativa...

O Paço das Artes inaugurou essa semana a exposição Still em Movimento: Lição de Pintura, com curadoria de Berta Sichel e obras de 10 artistas contemporâneos que trabalham a relação da tradição da pintura figurativa e a atualidade da imagem em movimento. Como categorias como o tempo, o frame, a narrativa e a ação conectam-se nas linguagens pictórica e cinematográfica? 

Já abordamos aqui no blog a relação cada vez mais dialética que vem se estabelecendo entre pintura e fotografia nas artes visuais de agora. A pintura hiper-realista vis-à-vis a fotografia pictórica. 

No caso da exposição do Paço, trata-se de uma outra problemática: como a pintura, analogamente ao cinema, lida com a representação de narrativas, de ações que se desenrolam, de histórias contadas?

Justin Mortimer, pintor britânico nascido em 1970, não está incluído nessa mostra. Mas poderia, uma vez que seus trabalhos mais recentes operam no registro da composição de narrativas que se desenrolam num mundo subterrâneo semelhante a prisões, salas de tortura, porões, laboratórios de experiências. São como crônicas de atmosferas sombrias, dominadas por objetos e máquinas num embate violento com a figuração - e desfiguração - do humano. O uso de tonalidades de preto e metalizados contrasta-se à artificialidade fluorescente de cores como o verde, o roxo, lilás, o amarelo. Filmes de horror.  

quarta-feira, 10 de abril de 2013

olhar, olhar, olhar... e continuar a olhar...

imagens da exposição "Fabiola", de Francis Aylis, em Londres e NYC.
A Pinacoteca do Estado de São Paulo recebe, desde a semana passada, a exposição "Fabiola", do artista belga, radicado no México, Francis Aylis. Trata-se de uma coleção de mais de 400 reproduções, das mais variadas origens e técnicas, do retrato original do pintor francês Jean-Jacques Henner, de 1885, na qual a santa católica, Fabiola, é representada de perfil, ornada com um véu vermelho. A pintura de Henner não tem paradeiro, não se sabe onde está. Mas Aylis, artista conhecido por sua arte eminentemente colaborativa e aberta, deparou-se, ao longo de mais de 15 anos, com reproduções da obra de Henner, as mais variadas, em mercados de pulgas, antiquários, brechós, feiras de antiguidades, lojinhas de bagulhos. Foram mais de 300 reproduções coletadas, todas elas expostas em conjunto a ocupar duas grandes paredes da Pinacoteca (antes, a exibição passou por cidades como Nova York e Londres). 

Se Aylis pode ou não ser considerado o artista da instalação - ou melhor, coleção - das "Fabiolas", há controvérsias. Pouco importa. Talvez ele tenha sido o curador dessa exibição, escondida de forma espalhada e dispersa por vários países onde o culto underground à Santa Fabiola é compartilhado. Talvez "Fabiola" seja o resultado, somado, do tempo de uma vida, as horas que cada artesão ou artista amador despendeu para retratar essa figura. Francis Aylis foi, no mínimo, o revelador, o meio pelo qual veio a público o conjunto de fabiolas, iguais e reproduzíveis em sua representação. Faltava quem olhasse, olhasse, olhasse... e continuasse a olhar, até perceber a recorrência e a repetição do ícone da padroeira protetora dos casamentos a perigo. 

(Hoje, no meu itinerário de trabalho, me propus a fazer um micro teste do olhar de Aylis, para algum tipo de representação iconográfica que se repetisse dentro de um mesmo contexto. Consegui, no máximo, formar um tríptico de imagens sacras, emolduradas por arames farpados ou pela própria grade de proteção que a separa da rua. Mais um dia de olhar, olhar, olhar... e continuar a olhar)...
imagens sacras emolduradas pela proteção da cidade - o arame farpado ou a grade - encontradas ao longo do meu itinerário de hoje: cemitério do araçá e colégio santa marcelina. 

sábado, 6 de abril de 2013

entre poesia e mercadoria...

Título da curadoria feita por Monica Espinel, uma das escolhidas pelo laboratório curatorial da sp-arte 2013
Impressão fotográfica de Francesca Woodman para "a pele que habito": a consciência e questionamento do nosso próprio corpo, como objeto, como meio, como distorção.
"Livro de areia", de Marilá Dardot: a leitura do fragmento de Heráclito só é legível através de seu reflexo no espelho. Fragmento que aborda a transitoriedade da existência, o eterno retorno, ser e vir a ser.
Objeto da série "Vis-à-vis", de Thiago Honório: espelho, chifre de boi e lentes de aumento, intermediando a relação de ver, se ver e ser visto.
Print fotográfico da série "Portadores", criada por Almudena Lober e Isabel Martinez, na qual anônimos emprestaram seus corpos para tatuagens cujos desenhos conversam com as respectivas partes em que foram inscritos, bem como com ações físicas feitas pelos portadores.
Pela segunda vez consecutiva, a feira internacional de arte de são paulo (sp-arte), edição 2013, promove uma ação institucional-educativa dentro da programação da feira, denominada "laboratório curatorial". 


Trata-se de selecionar projetos de novos curadores que trabalhem, além de conceitos próprios e perspectivas críticas, o diálogo com as obras e artistas representados pelas galerias que participam da feira. Em outros termos, para que a sp-arte não permaneça apenas no terreno dos negócios e dos cifrões - isto é, no campo da mercantilização da arte, puramente - a proposta do laboratório curatorial é abrir e alargar brechas entre a obra de arte como commodity, mercadoria com preço, e ela, obra de arte, como fruto de um ato criativo, de um contexto mais amplo, o campo da poética, da forma, da manifestação artística como irreverência, questionamento e discussão do mundo ao redor. 

Aparentemente pode-se pensar numa certa hipocrisia se consideramos tal iniciativa de modo ingênuo, como que autônoma e destacada do caráter feira comercial da sp-arte. Porém, não é com esse viés que o laboratório curatorial foi concebido. Não estamos num mundo de inocentes. O próprio texto de apresentação, na capa do folder, assume essa posição, a de tensionar um diálogo entre a disseminação crítica da obra de arte e o cenário de compra e venda em que ela também está inserida. 

A teoria do conhecimento apercebeu-se, com o desenrolar histórico das ciências exatas e humanas, de que ao lado de um conhecimento mainstream, isto é, hegemônico, convivem outras formas, teorias de compreensão e entendimento dos mesmos objetos de estudo - na física, na química, nas ciências sociais. É inevitável, no entanto, que alguns aspectos das teorias hegemônicas acabem por envelhecer, deixam de ser válidos na medida que não conseguem mais explicar os fatos a que se propõem dar uma organização causal ou contextualização lógica. E é aí, nesse ponto, em que as teorias marginais, off-road do status de legitimação científica dada por uma elite intelectual e acadêmia, entram em cena. Elas são fagocitadas pelo sistema padrão, conservador, a fim de arejá-lo, refrescar os metodologias de conhecimento e as teorias científicas. 

Processo análogo ocorre no mundo das artes em geral, pois a indústria cultural é voraz por novidades, por carne fresca e temperos exóticos, aparentemente críticos e inóspitos a ela, mas sem os quais não haveria renovação da mesmice.  A destruição criativa imposta pelo capitalismo mata, trucida, masca, come e engole tudo aquilo que puder lhe trazer rejuvenescimento e frescor.

De volta ao laboratório curatorial da sp-arte 2013, seus resultados trouxeram à discussão quatro pesquisas, empreendidas por quatro curadores, as quais não apenas indagam quais são as fronteiras do suporte artístico nos dias de hoje, se eles são passíveis de apropriação mercantilista (como vou vender uma performance?), como também dão a ver aos consumidores e apreciadores como a produção artística, no caso, a contemporânea, nasce num contexto poético, de manisfestações críticas - formais ou engajadas -, de um solo fértil que necessita de um mínimo de liberdade e espontaneidade para que, então, possa vir a ser abatida como presa a ser dependurada na vitrine do açougue.

Dramático esse final, sem dúvida. Porém, a realidade que se impõem exige esse equilíbrio tênue entre curto e longo prazo, entre o já assimilado e o experimentalismo, entre o duradouro e o efêmero, entre a poesia e a mercadoria. Difícil é mantermos esse pêndulo em movimento, esse tecido sempre tensionado, esticado.

PS-todas as fotos captadas pelo meu tele-móvel...

A curadoria de Tomás de Toledo, denominada "o enunciado em questão",  fala da palavra, da literatura e linguagem, como objetos, símbolos e formas apropriadas visualmente pela arte contemporânea (acima, frase de Proust, em print dourado, trazendo um contraste com a extensa obra do clássico escritor francês; por Mateo López).
"High Tension", impressão fotográfica de Anna Maria Maiolino, para a curadoria de Tomás Toledo.
Sandra Gamarra questiona o saber colonizador como algo artificialmente construído, também em "o enunciado em questão".