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terça-feira, 27 de agosto de 2013

mais de 1.000 brinquedos no salão...

A exposição "mais de mil brinquedos para a criança brasileira" é sucesso. Pela curadoria, pelo projeto expográfico, pelas camadas de fruição que ela permite, por unir de forma tão equilibrada e coerente a arte popular e a conceitual, contemporânea. Estas fotos aqui são uma pequena crônica minha - estreia da câmera nova - de uma das partes mais fascinantes pra mim nessa exibição - a linha de montagem de bonecas, elas sendo admiradas na vitrine e, no correr dos polias, seus desmantelo feito ex-votos, farnese de andrade... corpos dilacerados...

segunda-feira, 29 de julho de 2013

à beira do abismo...

Ocupação de Romain Crelier no monastério suíço de Bellelay - 2 grandes "piscinas" de resíduos de óleo industrial como superfície de reflexão das obras e da arquitetura do interior da igreja.
Hoje tive a nítida impressão de que tudo estava em minha cabeça. Que não precisava consultar mais livro algum, referência na internet, que já me bastava o que acumulara em minha cabeça. Foi uma espécie de recusa mesmo - por que voltar a pesquisar sobre algo que já pesquisara? Por insegurança? Postergação? Ou mera preguiça? Preguiça de fazer uso do tanto de coisas guardadas em minha cabeça. 

A sensação de totalidade, de universo, me remete à impressão de grandes imagens refletidas, de um infinito construído na sobreposição, em camadas. O vazio enxergando a forma. E foi então que essas imagens da ocupação feita pelo artista francês Romain Crelier, na igreja-monastério de Bellelay na Suíça, surgiram no meu tumblr. Nessa pesquisa tão despretensiosa de álbum de figurinha, de agenda de menina, de bloquinho de anotação que, pra mim, é a ferramenta mais interessante e gostosa das redes sociais - esse tal de tumblr.

Dois grandes containers em formas amebóides, onduladas, concentram uma grande quantidade de resíduos de óleo industrial usado. Por isso essa camada meio vinílica de espelho d'água pantanoso, brilhante e encerado. Uma substância essencialmente tóxica, artificial, no que isso tem de mais potente e pejorativo, de dejeto. Refletindo a arquitetura interior e os afrescos barrocos de um mosteiro do suíço. Artifício também, coisa de ser humano.

"Colocado no abismo" ou "à beira do abismo" podem ser as traduções do título da instalação de Crelier. Assumo, a partir da visualização das fotos da obre de Crelier, ser auto-explicativo o que seja uma instalação site-specific. É uma boa definição, entre tantas outras, essa aí, da obra de Crelier. Uma visualização que dá a vertigem da totalidade, do abstrato e do figurativo, dentro e fora, claro e escuro, reflexão e absorção. Tudo dentro de nossas cabeças. A obra de Crelier pensada especialmente para esse mosteiro barroco.

(em cartaz até 16 de setembro, em Bellelay, parte francesa do cantão de Berna, Suíça).  

sexta-feira, 12 de julho de 2013

o espírito do tempo...

Ifotos da expo bauhaus.foto.filme em cartaz no Sesc Pinheiros aqui de São Paulo.
Zeitgeist é uma palavra, um conceito grafado em alemão significando espírito da época ou do tempo. Independentemente das vertentes filosóficas que se apropriam do termo, Zeitgeist, numa interpretação mais pragmática, tem a ver com o espírito de uma época responsável ou influente na criação de movimentos sociais, políticos ou mesmo artísticos. 

A escola de design, fotografia, arquitetura e multi-meios fundada em 1919 por Walter Gropius em Weimar, Alemanha, de nome Bauhaus, veste o conceito de Zeitgeist feito uma luva. Sob a ideologia de uma arte total, acoplada às mudanças tecnológicas e culturais do momento histórico - a predominância da técnica, a mistura de arte e artesanato, a reprodução em massa trazida pela indústria; as novas tecnologias como a fotografia, o cinema; a funcionalidade introduzida como prioridade no design de interiores e na arquitetura -, tudo isso somado demonstra a preocupação da Bauhaus com o seu tempo, com a tentativa de promover uma utopia dentro da chegada inexorável do capitalismo industrial. 
Logo da escola criado em 1919.
A mostra bauhaus.foto.filme, em cartaz no SESC Pinheiros até 4 de agosto, reúne 100 fotos e 12 vídeos produzidos por professores e alunos da Bauhaus durante seu período de existência, entre 1919 e 1933 (para se ter uma ideia da fertilidade da produção fotográfica da escola, o arquivo Bauhaus do Museu do Design de Berlin conta com 40 mil fotografias). São registros os mais variados possíveis: reuniões de alunos e professores em momento de laser, as aulas, estudos de perspectiva e luz, retratos e autorretratos, fotos de projetos arquitetônicos e de design de interiores, mobiliário e utensílios domésticos. Além dos vídeos, as obras mais interessantes a meu ver, porque mostram o dia-a-dia dos experimentos bauhausianos, o modo de vida da época, os conceitos de funcionalidade arquitetônica, o espírito daquele tempo. Uma vida social e cultural efervescente e hiper criativa, a qual, num momento histórico seguinte, sofre um golpe avassalador com a subida ao poder pelos nazistas. 

Zeitgeist permanece, hoje, como a palavra a definir o legado da Bauhaus e a larga influência nos mais variados ramos da arte contemporânea, do design, fotografia e arquitetura. Um espírito de uma época que representou a consciência da forma, a preocupação com a concepção desde os objetos até o estilo e o modo de vida. A Bauhaus nos faz lembrar quão fundamental é o comprometimento com o nosso próprio tempo. 

quinta-feira, 4 de julho de 2013

o alemão e o coiote...

Em 1974, o galerista alemão René Block recebeu em sua filial da East Broadway de Nova York seu amigo e artista representado Joseph Beuys para uma performance de 3 dias. Faltava ainda a Beuys, já então um reconhecido artista conceitual na Europa, conquistar a América. E ele o fez à sua maneira.

Denominada "I Like America and America Likes Me", a obra começa quando o artista alemão desembarca no aeroporto JFK e imediatamente é envolvido num cobertor de feltro e levado de ambulância diretamente para a galeria de Block (primeira foto acima), lugar onde fica confinado por 3 dias junto com um coiote selvagem trazido especialmente para a performance. Munido de uma indumentária especial, a qual se torna símbolo de sua arte - o paletó de feltro, a manta, o cajado de pastor, o triângulo de metal, a cama de palha - Joseph Beuys interage 8 horas a cada dia diante do público dentro do recinto da galeria de arte.

No início, há certa hostilidade entre coiote e artista, que brinca de xamã, gira envolto em sua manta, cajado na cabeça, provoca o animal selvagem. Este reage com pulos, mordidas, avança sobre Beuys, rasga seu manto ritualístico. Com o passar dos dias, porém, animal e homem começam a conviver, coabitar, até que, no último dia, Beuys abraça o coiote, sem que o bicho ofereça resistência. Terminada a performance, o artista alemão volta novamente de ambulância direto para o aeroporto, e então para a Alemanha natal.

Só o que Beuys acaba por conhecer da América é um símbolo selvagem de resistência à colonização e ocidentalização do país, uma América primitiva. Uma América que parece gostar dele. Ou que simplesmente aceita-o em sua indiferença de animal irracional. Resta a alegoria do artista, seu gesto. Seu olhar subjetivo para um país de cultura intrincada e polêmica, principalmente nos anos 70. A opção pela força da metonímia, o todo por uma micro-parte. Uma ressignificação do diálogo entre a velha Europa e a terra das oportunidades, do então novo império capitalista do Ocidente. Uma conversa que se restabelece a partir de um passado primordial, velho também. Mas um passado tido como puro, autêntico e essencial.

Eu gosto de Beuys, de coiotes, e da América. 

quarta-feira, 3 de julho de 2013

os homens sob influência...

Se os gays estão perdidos em nome do falso moralismo, os héteros estão perdidos porque não são mais os provedores de antigamente, os chefes de família tradicionais, quando as mulheres e esposas ficavam em casa, cozinhando, lavando e passando, enquanto iam pra rua ganhar o pão nosso com o suor do rosto. Hoje a conjuntura dos casais homem-mulher não segue mais a um único padrão, embora nos seja cobrado um certo constrangimento num modelo tamanho 36 com corpos de número 44. 

Pensando nas tais mudanças de papéis trazidas pela modernidade, reflexo de um sem-número de mudanças de valores e hábitos de vida, o fotógrafo Jon Uriarte compôs uma série de fotos com amigos casados ou namorando, todos eles vestidos com as roupas das mulheres ou namoradas, em ambientes quotidianos compartilhados pelos casais. Uriarte chamou o ensaio de "Os Homens sob Influência...", uma referência ao filme cult de John Cassavettes, "A Woman Under the Influence" (1974), no qual a protagonista vivida por Gena Rowlands, companheira de vida toda de Cassavettes, passa a sofrer de distúrbios psiquiátricos, o que força seu marido, no filme, a tomar atitude drástica de interná-la numa clínica. 

Mais irreverente e menos sério do que a obra de Cassavettes, o ensaio de Uriarte aborda de modo bem-humorado a questão da relação a dois, homem-mulher. Que figurino é esperado de cada um nos dias atuais? Ternos para as executivas e saia e blusa para os maridos que tomam conta da casa? 

terça-feira, 25 de junho de 2013

japan pop-show...

"Sakura" (flor de cerejeira) é o título dessa série de retratos da fotógrafa japonesa, baseada em Londres, Sayaka Maruyama: segunda ela, seu trabalho resulta de uma mistura orgânica entre sua origem oriental e sua educação ocidental. Efeitos de estereograma, de vermelho e violeta, preto e branco também, envelhecimento, close-ups, enfim, uma composição formal e iconográfica Oriente + Ocidente.

domingo, 23 de junho de 2013

a geologia do mundo...

A obra de Roger Ballen partiu de uma proposta documental, no início (vide a foto dos gêmeos acima) para uma abordagem cada vez mais surreal e abstrata, chegando inclusive a criar performances e instalações para seus registros.
Roger Ballen é um fotógrafo autodidata. Nasceu em Nova York em 1950, numa família na qual a fotografia fazia parte do quotidiano (sua mãe trabalhava como revisora de imagens para a agência Magnum). 

Muito jovem ainda, Ballen abraçou a geologia como profissão. Sem uma educação formal, apenas a paixão por mapear geografias desconhecidas, pela possibilidade de viajar e documentar paisagens muito distintas da NYC natal. Aos 20 anos começou sua jornada pelo norte da África, sempre com uma câmera na mão, filme preto e branco, o qual nunca abandonou (uma de suas marcas registradas). Foi descendo até o extremo sul do continente, garimpando solos e imagens, terminando por se instalar onde já não podia mais seguir. Desde então, fixou residência na África do Sul, e hoje vive em Joanesburgo. 

São mais de 40 anos de trajetória como fotógrafo. Primeiro, como amador. Depois, como profissional. A passagem, segundo o próprio Ballen, da geologia para a fotografia foi contínua, sem sobressaltos. Afinal, tratava-se de cavar por debaixo da terra para encontrar um mundo existente mas não visível a olho nu. Como sua fotografia, fundadora de um universo entre o real e o imaginário. Nem documentar nem inventar, mas sim dar forma para acomodar a enorme bagunça do mundo, parafraseando Beckett. As imagens escavadas por Ballen são abstrações a reconfigurar a realidade, sem, no entanto, querer organizá-la. Muito pelo contrário. São imagens perturbadoras. Como a geologia, o objetivo é aceitar a tal bagunça, o caos, redimensioná-la sem julgamentos. Por isso a fidelidade ao preto e branco. O claro e o escuro são instrumentos para esse mundo in between, inconsciente. A fotografia de Roger Ballen abraça a confusão do mundo.

(abaixo o clipe dirigido por Ballen para o trio de hip-hop sul-africano Die Antwoord, original da Cidade do Cabo, cujo trabalho baseia-se no Zef, gíria sul-africana para a cultura indie do país que se apropria do mix de influências do tribal, popular, street art e cultura de massa).