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segunda-feira, 29 de abril de 2013

a exposição iminente...


Autorretratos do fotógrafo norte-americano Lee Friedlander.
Entrei no museu ainda vazio. Pouca gente circulava por lá. Mesmo assim, a sensação era de abafamento. Caiam imagens sobre minha cabeça, e eu não conseguia fixá-las. Uma ou outra fotografia me atraiam a atenção, mas o conjunto se anulou em mim. Em minha percepção, intransferível. 


Saí do museu. Bebi 2 cervejas com um amigo. Falamos da exposição. Do que estava ao redor, não das fotos. Sensação estranha, porém nada desconfortável. Logo passamos pra outros assuntos, para simplificar a noite.

Já bem distante do museu, em casa, me olhei no espelho, lavei o rosto, e me percebi menos importante. Aquele reflexo, pelo menos. Sorri, pra ver quantas marcas ao redor dos olhos se formavam. Menos rugas no olho direito do que no esquerdo. Fiz mais caretas, massagens faciais, estiquei e soltei a pele da cara várias vezes. Difícil envelhecer, fácil exagerar. Fechei os olhos com força, abri-os de supetão. Nada de mais. Não cabe a mim me ver. Isso é função dos outros. Cabe a mim estar presente. 

domingo, 24 de março de 2013

leah gordon e a etno-fotografia...


Todo ano, Jacmel, uma cidade litorânea no sul do Haiti, celebra o Carnaval. O Carnaval haitiano ainda reflete as tradições étnicas do caldeirão cultural do país. Mistura de festejos medievais, raízes africanas, mitologia voodoo, e sátira política, os monstros do bestiário carnavalesco da ilha caribenha saem às ruas durante os dias de Carnaval para festejar, celebrar, espiar os fantasmas e espíritos ruins e, ao mesmo tempo, exercer a crítica social e política. 

Na série denominada "Kanaval", toda ela em preto e branco, a fotógrafa britânica Leah Gordon documenta a festa popular em Jacmel. Com uma obra focada no foto-jornalismo, na fotografia etnográfica e antropológica, Gordon consegue transmitir, em seus registros, a potência primitiva do Carnaval haitiano, dando a ver a rica iconografia utilizada pela população durante a festa - vide os cornos, chifres, máscaras -, e seu lado sombrio, pesado até. 

Aqui, vem-me à cabeça, uma analogia com a obra do etno-fotógrafo francês, radicado baiano, Pierre Verger. Suas fotos, também em branco e preto, são ícones representativos da cultura afro-religiosa ainda bem viva nessa região do Brasil. Uma cultura onde a violência também ocupa um espaço importante.

Quando fui a Salvador pela primeira vez, tive essa sensação quase que imediatamente. Salvador não é suave. É lustrosa, ruidosa, fedida e cheirosa, colorida, poluída, barroca, negra, mestiça, portuguesa, uma cidade cuja população parece carregar nas costas um fardo, um peso que vem tanto da violência da escravidão, como da violência primitiva da religião iorubá.

A visão de universo e mundo a unir Haiti e Bahia está fincada numa força primitiva sombria, guerreira e metálica, sensual e sexual. Força essa que traz consigo um peso. Peso que se soma à violência da escravidão, violência essa que até hoje vibra nesses lugares. 

Um ato fotográfico talvez seja menos violento do que a ação de pintar sobre uma tela, ou de moldar uma escultura. Mas pode se tornar tão ou mais violento quando, sob um olhar estrangeiro, invade um mundo de personagens próprios e espontâneos, acostumados a uma cultura muitas vezes percebida como bárbara ou tacanha aos olhos do ocidental "civilizado". Esse olhar se choca com o que vê e representa. Admitir esse estranhamento, essa "batida de frente" com o objeto representado transforma-se, por fim, naquilo que confere a ele, como obra de arte, potência e encantamento. As fotos de Leah Gordon atuam, mais do que falam, nessa direção e sentido. 

terça-feira, 5 de março de 2013

à procura de vivian maier, encontramos sua obra...

A cada dia aumenta minha crença no pensamento dialético. No diálogo e no encaminhamento pacífico que nasce do conflito e da oposição. Sempre fui ensinado de que vida e obra de um artista não deviam se misturar. Não se poderia julgar o valor da obra de um artista utilizando sua vida como metro. Então, com o tempo, os artistas passam a trazer suas próprias vidas para dentro de suas obras, incluem a si mesmos como objetos, como matéria do discurso ou de sua forma de expressão. Assim, acabo por me deparar com uma saturação dessa fusão: vivemos num mundo em que o artista angustia-se de tal maneira com o legado a ser deixado que ele se paralisa. Ou ele tenta se reinventar de modo banal, monocórdico, sem nunca terminar o que começou a fazer. Ele deixa de pensar no prazer - e na luta - do qual se trata o processo de fazer arte para pensar exclusivamente nos resultados, nos fins. E ele chega, por fim, a esse medo do fim, da morte. De morrer e não deixar uma obra significativa, um legado marcante.

Nesse contexto, vem à tona a história de Vivian Maier, e sua arte, sobretudo. Milhares de registros fotográficos, de negativos, de filmes a serem revelados, de rolos de super-8. Uma vida em segredo respirando arte para si própria, somente. Pela obsessão ou pelo prazer de fazer arte. Não importando reconhecimento, legado, resultado. Uma separação quase brutal, violenta, entre a mulher que ganha sua vida como babá e a artista que sai anônima pelas ruas da cidade, e se tranca em seu quarto para processar sua arte. O legado de Vivian Maier talvez chegue a ser comparado ao de um Cartier-Bresson, pela potência de seus registros fotográficos, pela enorme intimidade estabelecida entre sua câmera e seus retratados. Uma espiã disfarçada de babá. Uma qualquer. Uma autora de obra monumental. Aqui, a dialética entre a vida e a obra de um artista está posta: uma separação tão radical das duas que reforça a inseparabilidade de ambas. A vida de um artista é tão fundamental para sua obra quanto mais ele pensa sua precariedade existencial, quanto mais ele se debruça sobre o fazer artístico, e, assim, sobre a significação de sua impermanência. Algumas pessoas conheceram Vivian Maier como filha, amiga, empregada, cliente, mas nunca como artista. Agora, estamos diante da riqueza de sua obra.

Abaixo, trailer do documentário sobre essa obra fascinante, e a história por trás dessa obra.


quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

crepúsculo...

Kyle Thompson é desses fenômenos da blog-arte. 21 anos, residente da grande Chicago, descreve-se como apaixonado por bosques desertos e lugares abandonados. Quase a maioria das fotos que posta foi tirada por ele mesmo. O mais engraçado são os reblogs via tumblr de seus retratos meio "saga crepúsculo". Um deles diz "tenho certeza de que você segue esse jovem artista,  caso contrário, suas referências não são tão ricas quanto poderiam ser". Falaram pra seguir, então...

domingo, 27 de janeiro de 2013

Ren Hang - poeta da realidade...

Foi graças à minha amiga Andrea Lourenço que tomei conhecimento da obra da poeta e fotógrafa chinesa, Ren Hang. Adentrando seu site, percebemos que há uma classificação de suas séries fotográficas pelo ano em que foram executadas. Me detive nas mais recentes, as fotografias que compõem o álbum de 2013. 

O que mais me fascina na arte chinesa contemporânea é a real necessidade - unida ao desejo do artista, o que é mais forte ainda - de falar sobre o indivíduo, sobre o corpo, a sexualidade, o sexo mesmo. Algo que ficou por muitas décadas esmagado por uma ideologia comunista da coletividade. Um corpo morto, um cadáver, um pinto, uma boceta, é apenas 1. E o que vale é o todo. 

Vivemos também, veladamente, tempos totalitários aqui pras bandas do Ocidente. A indústria cultural busca nos uniformizar, nos tornar iguais a um todo, apartando de nós as diferenças. Ao olhar a obra de Re Hang, percebo que, pelas suas lentes, essa luta pela diferença é explícita, e por isso até impregnada pelo realismo de suas imagens. Não há glamour ou estetização. Mas uma poesia da realidade que cada corpo, cada sexo, cada cabeça, cada indivíduo representa. 

uma foto por dia, 366 dias ao ano...366?

O fotógrafo Mikael Aldo, confesso amador no mundo das artes e da fotografia profissional, aceitou um desses desafios de produzir uma obra por dia durante um ano. No caso, um click por dia. E mais um de lambuja, pra completar 366. 

Baseado na Indonédia, isto é, fora do eixo tradicional das artes, as imagens surrealistas e oníricas de Aldo demonstram como ele cumpriu com louvor essa missão.