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segunda-feira, 8 de julho de 2013

jesse e celine...

Celine e Jesse (Julie Delpy e Ethan Hawke) em "Antes da Meia-Noite" (2013), filme que encerra a trilogia de Richard Linklater sobre o casal que se conhece em 1994 num trem em Viena ("Antes do Amanhecer") e que volta a se reencontrar 9 anos depois em Paris ("Antes do Pôr-do-Sol"), sem sabermos se, de fato, Jesse perdeu o voo de volta para os EUA e ficou com Celine. 
"Antes da Meia-Noite" (2013) foi uma surpresa. Há alguns meses tomei conhecimento de que a história de Jesse e Celine formaria uma trilogia. Fiquei feliz, curioso. Como se eu estivesse à espera de uma visita de amigos queridos, íntimos até. Amigos que acompanharam minha vida afetiva, pessoal, que também chegaram aos quarenta com questões e dúvidas em comum. E a intuição de que amar a vida, querer estar nela, é o que vai nos conectar para sempre, de um modo ou de outro, até que a gente, enfim, desapareça. 

Como das outras vezes, foi um imenso prazer receber Jesse e Celine, testemunhar seus diálogos espirituosos e inteligentes, sua intimidade. Já sinto saudades. Mas sei que eles permanecerão comigo até que eu, eles, a gente, enfim, desapareça. Até lá, muito caminho pela frente.  

quinta-feira, 23 de maio de 2013

eu não estou lá...

Os 6 atores que representam a vida e a personagem pública de Bob Dylan, no cartaz original do filme, de 2007. Cate Blanchett foi indicada ao Oscar de melhor atriz coadjuvante por sua atuação. Ao lado dela, no canto inferior esquerdo Heath Ledger.
"Eu não estou lá" é o título do longa-metragem de Todd Haynes, baseado na vida e obra do cantor e compositor norte-americano Bob Dylan. 6 diferentes atores representam 6 aspectos da história e das canções de Dylan. Ele, mesmo, nunca está lá. 

Títulos são desprezados muitas vezes. Assim como os créditos, a apresentação de um filme, a capa de um álbum ou a moldura de uma tela. Mas vamos nos concentrar apenas no título. Quando um artista denomina uma obra "sem título", da duas, uma. Ou se trata de uma peça pertencente a um série, a um conjunto, em que o todo é o que dá coerência, o conceito que substitui o título; ou é mesmo um pouco caso com a própria obra. Digo isso porque penso que títulos, nomes, são importantes (óbvio que me incomoda profundamente ver uma pintura abstrata, sem conceito ou composição, denominada "O Mito de Sísifo Encontra O Minotauro no Labirinto"; isso me remete àqueles concursos de fantasia nos carnavais de antigamente, em que todas as fantasias na categoria luxo tinham um título apoteótico e, no fim, um era igual ao outro, assim como as fantasias: uma profusão de penas e paetês). 

"I'm not there". "Eu não estou lá", este título diz muito sobre o filme. Sobre como Bob Dylan já virou um personagem, um mito; uma figura que não carece mais de uma identificação unívoca para que seja evocado - todo seu repertório de canções, de vivências, de estilo, tudo isso prescinde de sua presença. Ele não está lá porque não precisa mais estar. Não faz mais sentido.
Os trabalhos da fotógrafa canadense radicada em Chicago Laura Letinsky retratam um conceito análogo de ausência, de falta. Aqui, pego os exemplos de duas de suas séries: "Manhã e Melancolia" (c. 1997-2001) e "Eu Não Me Lembrei Que Havia Esquecido" (c. 2002-2004). 

Os títulos são chave para uma compreensão mais acurada e poética das fotografias de Letinsky. Temos cenários como "naturezas mortas" sob uma luz intensa da manhã; mesas com restos de comida, com toalhas manchadas, utensílios domésticos. Evocações da presença de muitas pessoas reunidas, de uma festa, uma refeição compartilhada. Só que estamos no dia seguinte. Não há mais convidados, amigos, familiares, apenas seus vestígios, o lixo e a bagunça que o anfitrião preguiçoso - ou talvez triste pelo fim da festa - ainda não limpou. 

"Morning and Melancholia", segundo Letinsky, é um jogo de palavras, uma alusão a "Mournig and Melancholia" ("Luto e Melancolia"), um texto clássico de Freud sobre as respostas humanas à perda. Já "Eu Não Me Lembrei Que Havia Esquecido" refere-se a uma citação de Santo Agostinho, em suas memórias, em que o santo finaliza, dizendo, que "ninguém poderia jamais dizer que eu não me lembrei que havia esquecido". Como se fosse a marcação de uma ausência dupla: não se lembrar e esquecer. Letinsky relata que ficou cerca de 3 anos sem ouvir música enquanto dirigia, até quando sintonizou o rádio do carro numa FM, e então recordou dos CD's largados ali no porta-luvas. A sensação, segunda ela, foi a de ter bebido água quando se está com muita sede: como, afinal de contas, ela não se lembrava que havia esquecido que gostava tanto de música?

Penso que conseguimos lidar com a ausência, a falta, quando a elaboramos por meio de índices, registros e marcas daquilo que aquela presença nos deixou. Como herança, como exemplo, como sentimento vivido. Bob Dylan é um ícone tão representativo na cultura pop ocidental que já virou metonímia; não precisamos mais dele, de sua presença; apenas assobiamos "Blowin' In The Wind". Já os restos e vestígios de pessoas reunidas, se divertindo, nas fotos de Laura Letinsky, nos faz pensar nesse interstício, nesse tempo no meio, no vazio, em que estamos ainda de luto, sem mexer uma palha para limpar e organizar os rastros daqueles que não estão mais presentes. Aqueles que não estão mais ali. E cuja ausência nos faz lembrar como comumente nos esquecemos de quanto a presença deles costuma ser boa, prazerosa. 

segunda-feira, 6 de maio de 2013

em maio...

Cenas em still de "Depois de Maio" (2012), de Olivier Assayas.
A fotografia em preto e branco de "Amantes Constantes" (2005), de Philippe Garrel.
"Os Sonhadores"(2003), de Bernardo Bertolucci.
Maio é um mês icônico: mês das noivas, mês de Maria, do Festival de Cannes, do baile de gala do MET (risos), da primavera se consolidando no hemisfério norte, da luz cinematográfica de outono no hemisfério sul, da revolução de 68. Maio é como setembro. Meses análogos, que nos remetem à ideia de renovação, nova estação do ano, fim e começo de ciclos. 

"Depois de Maio" (2012), de Olivier Assayas, fecha, na minha cabeça, uma trilogia sobre os idos de maio de 68, sobre a revolução política e de costumes iniciada de dentro da sociedade civil em direção ao estado, e não vice-versa, que, se acabou frustrada em muitos pontos, também abriu caminhos para novos modos de viver e pensar. Dessa trilogia subjetiva, fazem parte ainda "Os Sonhadores" (2003), de Bernardo Bertolucci, e "Amantes Constantes" (2005), de Philippe Garrel. 

"Depois de Maio" chega para desempatar. Afina-se muito mais à poética e às reflexões de "Amantes Constantes" do que ao niilismo de "Os Sonhadores". Embora muito mais solar, o filme de Assayas compartilha, junto à obra de Garrel, o engajamento político e estético trazido pelos embates da primavera de 68, assim como aborda os vários desdobramentos a atingir cada um daqueles jovens personagens após aquele maio. 

Não considero "Os Sonhadores" um filme ruim. Apenas um filme frio, cerebral, planejado para acontecer de propósito à margem das barricadas de Paris à época dos confrontos entre polícia e estudantes. Os 3 jovens ali ausentes estão mais interessados em brincar de "quem sabe, sabe" da história do cinema. O embate, ali, se dá entre o Velho Mundo decadente e amoral e o Novo Mundo economicamente mais forte porém ainda pudico e moralista (Bertolucci me passa muito a impressão de um diretor soft intelectual, estetizante, tendência que foi se acirrando em sua trajetória). 

Numa outra vertente, "Amantes Constantes" e "Depois de Maio" não separam a efervescência política ocorrida naqueles tempos da efervescência artística e de comportamento a ela associada. Afinal de contas, trata-se de um momento recente da história mundial em que foi possível vislumbrar de forma mais ampla o significado e as extensões do termo "política": uma ação coletiva que está relacionada com nosso entorno, a comunidade, o país em que vivemos. Portanto, agir politicamente não significava apenas sair às ruas e protestar, clamar por uma democracia que saísse do papel e fosse mais realista. Significava também questionar velhos comportamentos e padrões sociais. Significava estar mais perto da arte como movimento de mudança, de abertura de percepções e consciências. Significava acreditar na transgressão. 

Só que, pela própria definição, a transgressão não se mantém perene. Ela não é permanente. E novos desafios surgiram para aqueles jovens pós-68. Continuar a lutar com que armas? Resistir à acomodação de que maneira? Optar pelo romantismo do personagem de Louis Garrel em "Amantes Constantes" ou pelo pragmatismo de sua namorada/amante que resolve levar seu trabalho como escultora de modo profissional, capitalista?

Foram decisões difíceis de serem tomadas, e nem sempre conscientes, na maioria das vezes. Aqueles jovens sentiram na pele que, apesar da revolução, padrões, sistemas, atitudes, modos de agir e ver o mundo, permaneceriam. Como coexistir a tendência à continuidade com o que havia sido conquistado pela transgressão, esse passou a ser o grande desafio, a grande contradição.  

Muito se fala dos poetas e artistas que morrem muito jovens. Há uma aura mítica em torno deles, pois suas transgressões são imortalizadas. Não são obrigados a amadurecer e envelhecer, a repensar suas ações no mundo. Não correm o risco de serem acusados de covardes ou traidores. Talvez seja por isso que admiro tanto esses que sobrevivem, os Resnais da vida, as Louise Bourgeois, os Assayas, Bertolucci e Garrel. Afinal, tentar se equilibrar na corda bamba da transgressão e da continuidade ao longo do tempo, e sendo afetado pelo tempo, isso sim é uma revolução. 

terça-feira, 5 de março de 2013

à procura de vivian maier, encontramos sua obra...

A cada dia aumenta minha crença no pensamento dialético. No diálogo e no encaminhamento pacífico que nasce do conflito e da oposição. Sempre fui ensinado de que vida e obra de um artista não deviam se misturar. Não se poderia julgar o valor da obra de um artista utilizando sua vida como metro. Então, com o tempo, os artistas passam a trazer suas próprias vidas para dentro de suas obras, incluem a si mesmos como objetos, como matéria do discurso ou de sua forma de expressão. Assim, acabo por me deparar com uma saturação dessa fusão: vivemos num mundo em que o artista angustia-se de tal maneira com o legado a ser deixado que ele se paralisa. Ou ele tenta se reinventar de modo banal, monocórdico, sem nunca terminar o que começou a fazer. Ele deixa de pensar no prazer - e na luta - do qual se trata o processo de fazer arte para pensar exclusivamente nos resultados, nos fins. E ele chega, por fim, a esse medo do fim, da morte. De morrer e não deixar uma obra significativa, um legado marcante.

Nesse contexto, vem à tona a história de Vivian Maier, e sua arte, sobretudo. Milhares de registros fotográficos, de negativos, de filmes a serem revelados, de rolos de super-8. Uma vida em segredo respirando arte para si própria, somente. Pela obsessão ou pelo prazer de fazer arte. Não importando reconhecimento, legado, resultado. Uma separação quase brutal, violenta, entre a mulher que ganha sua vida como babá e a artista que sai anônima pelas ruas da cidade, e se tranca em seu quarto para processar sua arte. O legado de Vivian Maier talvez chegue a ser comparado ao de um Cartier-Bresson, pela potência de seus registros fotográficos, pela enorme intimidade estabelecida entre sua câmera e seus retratados. Uma espiã disfarçada de babá. Uma qualquer. Uma autora de obra monumental. Aqui, a dialética entre a vida e a obra de um artista está posta: uma separação tão radical das duas que reforça a inseparabilidade de ambas. A vida de um artista é tão fundamental para sua obra quanto mais ele pensa sua precariedade existencial, quanto mais ele se debruça sobre o fazer artístico, e, assim, sobre a significação de sua impermanência. Algumas pessoas conheceram Vivian Maier como filha, amiga, empregada, cliente, mas nunca como artista. Agora, estamos diante da riqueza de sua obra.

Abaixo, trailer do documentário sobre essa obra fascinante, e a história por trás dessa obra.


quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Pornografia e arte...

Parece perturbador para alguns o consagrado ator de Hollywood, James Franco, enveredar pela pornografia gay. Mas Franco não é um galã padrão da indústria cinematográfica norte-americana. Aos 34 anos, dando aula em 2 universidades e partindo para outro doutorado, a faceta experimental de James Franco lhe é muito mais desafiadora e instigante do que protagonizar filmes de ação ou comédias românticas. 

Baseado nos lendários 40 minutos cortados das cenas de Al Pacino em "Parceiros da Noite" (1980), no qual o policial por ele vivido perambula pelos bares gays de NYC no encalço de um assassino, "Interior. Leather Bar" tem pinta de filme cabeça, flertando com o documentário. E, como diretor, James Franco, voyeur, por trás das câmeras a filmar cenas de sexo explícito homem a homem, achando bonito e atrativo. Diversão e arte. Não em qualquer parte, infelizmente...