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segunda-feira, 8 de julho de 2013

jesse e celine...

Celine e Jesse (Julie Delpy e Ethan Hawke) em "Antes da Meia-Noite" (2013), filme que encerra a trilogia de Richard Linklater sobre o casal que se conhece em 1994 num trem em Viena ("Antes do Amanhecer") e que volta a se reencontrar 9 anos depois em Paris ("Antes do Pôr-do-Sol"), sem sabermos se, de fato, Jesse perdeu o voo de volta para os EUA e ficou com Celine. 
"Antes da Meia-Noite" (2013) foi uma surpresa. Há alguns meses tomei conhecimento de que a história de Jesse e Celine formaria uma trilogia. Fiquei feliz, curioso. Como se eu estivesse à espera de uma visita de amigos queridos, íntimos até. Amigos que acompanharam minha vida afetiva, pessoal, que também chegaram aos quarenta com questões e dúvidas em comum. E a intuição de que amar a vida, querer estar nela, é o que vai nos conectar para sempre, de um modo ou de outro, até que a gente, enfim, desapareça. 

Como das outras vezes, foi um imenso prazer receber Jesse e Celine, testemunhar seus diálogos espirituosos e inteligentes, sua intimidade. Já sinto saudades. Mas sei que eles permanecerão comigo até que eu, eles, a gente, enfim, desapareça. Até lá, muito caminho pela frente.  

quarta-feira, 3 de julho de 2013

os homens sob influência...

Se os gays estão perdidos em nome do falso moralismo, os héteros estão perdidos porque não são mais os provedores de antigamente, os chefes de família tradicionais, quando as mulheres e esposas ficavam em casa, cozinhando, lavando e passando, enquanto iam pra rua ganhar o pão nosso com o suor do rosto. Hoje a conjuntura dos casais homem-mulher não segue mais a um único padrão, embora nos seja cobrado um certo constrangimento num modelo tamanho 36 com corpos de número 44. 

Pensando nas tais mudanças de papéis trazidas pela modernidade, reflexo de um sem-número de mudanças de valores e hábitos de vida, o fotógrafo Jon Uriarte compôs uma série de fotos com amigos casados ou namorando, todos eles vestidos com as roupas das mulheres ou namoradas, em ambientes quotidianos compartilhados pelos casais. Uriarte chamou o ensaio de "Os Homens sob Influência...", uma referência ao filme cult de John Cassavettes, "A Woman Under the Influence" (1974), no qual a protagonista vivida por Gena Rowlands, companheira de vida toda de Cassavettes, passa a sofrer de distúrbios psiquiátricos, o que força seu marido, no filme, a tomar atitude drástica de interná-la numa clínica. 

Mais irreverente e menos sério do que a obra de Cassavettes, o ensaio de Uriarte aborda de modo bem-humorado a questão da relação a dois, homem-mulher. Que figurino é esperado de cada um nos dias atuais? Ternos para as executivas e saia e blusa para os maridos que tomam conta da casa? 

quinta-feira, 23 de maio de 2013

eu não estou lá...

Os 6 atores que representam a vida e a personagem pública de Bob Dylan, no cartaz original do filme, de 2007. Cate Blanchett foi indicada ao Oscar de melhor atriz coadjuvante por sua atuação. Ao lado dela, no canto inferior esquerdo Heath Ledger.
"Eu não estou lá" é o título do longa-metragem de Todd Haynes, baseado na vida e obra do cantor e compositor norte-americano Bob Dylan. 6 diferentes atores representam 6 aspectos da história e das canções de Dylan. Ele, mesmo, nunca está lá. 

Títulos são desprezados muitas vezes. Assim como os créditos, a apresentação de um filme, a capa de um álbum ou a moldura de uma tela. Mas vamos nos concentrar apenas no título. Quando um artista denomina uma obra "sem título", da duas, uma. Ou se trata de uma peça pertencente a um série, a um conjunto, em que o todo é o que dá coerência, o conceito que substitui o título; ou é mesmo um pouco caso com a própria obra. Digo isso porque penso que títulos, nomes, são importantes (óbvio que me incomoda profundamente ver uma pintura abstrata, sem conceito ou composição, denominada "O Mito de Sísifo Encontra O Minotauro no Labirinto"; isso me remete àqueles concursos de fantasia nos carnavais de antigamente, em que todas as fantasias na categoria luxo tinham um título apoteótico e, no fim, um era igual ao outro, assim como as fantasias: uma profusão de penas e paetês). 

"I'm not there". "Eu não estou lá", este título diz muito sobre o filme. Sobre como Bob Dylan já virou um personagem, um mito; uma figura que não carece mais de uma identificação unívoca para que seja evocado - todo seu repertório de canções, de vivências, de estilo, tudo isso prescinde de sua presença. Ele não está lá porque não precisa mais estar. Não faz mais sentido.
Os trabalhos da fotógrafa canadense radicada em Chicago Laura Letinsky retratam um conceito análogo de ausência, de falta. Aqui, pego os exemplos de duas de suas séries: "Manhã e Melancolia" (c. 1997-2001) e "Eu Não Me Lembrei Que Havia Esquecido" (c. 2002-2004). 

Os títulos são chave para uma compreensão mais acurada e poética das fotografias de Letinsky. Temos cenários como "naturezas mortas" sob uma luz intensa da manhã; mesas com restos de comida, com toalhas manchadas, utensílios domésticos. Evocações da presença de muitas pessoas reunidas, de uma festa, uma refeição compartilhada. Só que estamos no dia seguinte. Não há mais convidados, amigos, familiares, apenas seus vestígios, o lixo e a bagunça que o anfitrião preguiçoso - ou talvez triste pelo fim da festa - ainda não limpou. 

"Morning and Melancholia", segundo Letinsky, é um jogo de palavras, uma alusão a "Mournig and Melancholia" ("Luto e Melancolia"), um texto clássico de Freud sobre as respostas humanas à perda. Já "Eu Não Me Lembrei Que Havia Esquecido" refere-se a uma citação de Santo Agostinho, em suas memórias, em que o santo finaliza, dizendo, que "ninguém poderia jamais dizer que eu não me lembrei que havia esquecido". Como se fosse a marcação de uma ausência dupla: não se lembrar e esquecer. Letinsky relata que ficou cerca de 3 anos sem ouvir música enquanto dirigia, até quando sintonizou o rádio do carro numa FM, e então recordou dos CD's largados ali no porta-luvas. A sensação, segunda ela, foi a de ter bebido água quando se está com muita sede: como, afinal de contas, ela não se lembrava que havia esquecido que gostava tanto de música?

Penso que conseguimos lidar com a ausência, a falta, quando a elaboramos por meio de índices, registros e marcas daquilo que aquela presença nos deixou. Como herança, como exemplo, como sentimento vivido. Bob Dylan é um ícone tão representativo na cultura pop ocidental que já virou metonímia; não precisamos mais dele, de sua presença; apenas assobiamos "Blowin' In The Wind". Já os restos e vestígios de pessoas reunidas, se divertindo, nas fotos de Laura Letinsky, nos faz pensar nesse interstício, nesse tempo no meio, no vazio, em que estamos ainda de luto, sem mexer uma palha para limpar e organizar os rastros daqueles que não estão mais presentes. Aqueles que não estão mais ali. E cuja ausência nos faz lembrar como comumente nos esquecemos de quanto a presença deles costuma ser boa, prazerosa. 

segunda-feira, 6 de maio de 2013

em maio...

Cenas em still de "Depois de Maio" (2012), de Olivier Assayas.
A fotografia em preto e branco de "Amantes Constantes" (2005), de Philippe Garrel.
"Os Sonhadores"(2003), de Bernardo Bertolucci.
Maio é um mês icônico: mês das noivas, mês de Maria, do Festival de Cannes, do baile de gala do MET (risos), da primavera se consolidando no hemisfério norte, da luz cinematográfica de outono no hemisfério sul, da revolução de 68. Maio é como setembro. Meses análogos, que nos remetem à ideia de renovação, nova estação do ano, fim e começo de ciclos. 

"Depois de Maio" (2012), de Olivier Assayas, fecha, na minha cabeça, uma trilogia sobre os idos de maio de 68, sobre a revolução política e de costumes iniciada de dentro da sociedade civil em direção ao estado, e não vice-versa, que, se acabou frustrada em muitos pontos, também abriu caminhos para novos modos de viver e pensar. Dessa trilogia subjetiva, fazem parte ainda "Os Sonhadores" (2003), de Bernardo Bertolucci, e "Amantes Constantes" (2005), de Philippe Garrel. 

"Depois de Maio" chega para desempatar. Afina-se muito mais à poética e às reflexões de "Amantes Constantes" do que ao niilismo de "Os Sonhadores". Embora muito mais solar, o filme de Assayas compartilha, junto à obra de Garrel, o engajamento político e estético trazido pelos embates da primavera de 68, assim como aborda os vários desdobramentos a atingir cada um daqueles jovens personagens após aquele maio. 

Não considero "Os Sonhadores" um filme ruim. Apenas um filme frio, cerebral, planejado para acontecer de propósito à margem das barricadas de Paris à época dos confrontos entre polícia e estudantes. Os 3 jovens ali ausentes estão mais interessados em brincar de "quem sabe, sabe" da história do cinema. O embate, ali, se dá entre o Velho Mundo decadente e amoral e o Novo Mundo economicamente mais forte porém ainda pudico e moralista (Bertolucci me passa muito a impressão de um diretor soft intelectual, estetizante, tendência que foi se acirrando em sua trajetória). 

Numa outra vertente, "Amantes Constantes" e "Depois de Maio" não separam a efervescência política ocorrida naqueles tempos da efervescência artística e de comportamento a ela associada. Afinal de contas, trata-se de um momento recente da história mundial em que foi possível vislumbrar de forma mais ampla o significado e as extensões do termo "política": uma ação coletiva que está relacionada com nosso entorno, a comunidade, o país em que vivemos. Portanto, agir politicamente não significava apenas sair às ruas e protestar, clamar por uma democracia que saísse do papel e fosse mais realista. Significava também questionar velhos comportamentos e padrões sociais. Significava estar mais perto da arte como movimento de mudança, de abertura de percepções e consciências. Significava acreditar na transgressão. 

Só que, pela própria definição, a transgressão não se mantém perene. Ela não é permanente. E novos desafios surgiram para aqueles jovens pós-68. Continuar a lutar com que armas? Resistir à acomodação de que maneira? Optar pelo romantismo do personagem de Louis Garrel em "Amantes Constantes" ou pelo pragmatismo de sua namorada/amante que resolve levar seu trabalho como escultora de modo profissional, capitalista?

Foram decisões difíceis de serem tomadas, e nem sempre conscientes, na maioria das vezes. Aqueles jovens sentiram na pele que, apesar da revolução, padrões, sistemas, atitudes, modos de agir e ver o mundo, permaneceriam. Como coexistir a tendência à continuidade com o que havia sido conquistado pela transgressão, esse passou a ser o grande desafio, a grande contradição.  

Muito se fala dos poetas e artistas que morrem muito jovens. Há uma aura mítica em torno deles, pois suas transgressões são imortalizadas. Não são obrigados a amadurecer e envelhecer, a repensar suas ações no mundo. Não correm o risco de serem acusados de covardes ou traidores. Talvez seja por isso que admiro tanto esses que sobrevivem, os Resnais da vida, as Louise Bourgeois, os Assayas, Bertolucci e Garrel. Afinal, tentar se equilibrar na corda bamba da transgressão e da continuidade ao longo do tempo, e sendo afetado pelo tempo, isso sim é uma revolução. 

quarta-feira, 24 de abril de 2013

contemporâneo, que é do mesmo tempo de, que é concomitante, que é do nosso tempo...


Depois de apresentar os novos desdobramentos do seu trabalho, Juliana* levantou uma questão para nós da turma de 3a. do grupo de acompanhamento de artista: como eu faço para que meus alunos se interessem por arte contemporânea? Ela tem um ateliê onde ensina desenho, pintura, mas pensa em ir mais a fundo, em mostrar a seus alunos a relevância e a potência da arte feita nos tempos de hoje para quem, numa caracterização clichê, tem como parâmetro de arte a pintura acadêmica figurativa. 

Uma outra colega nossa, Paula, mencionou que sua professora de história da arte, na faculdade, começava o curso de trás para frente, abordando primeiro a arte contemporânea em seus vários aspectos, para depois adentrar a linha do tempo histórico. A justificativa para sua metodologia: o que é produzido no tempo presente nos é muito mais próximo; levanta proposições e suscita reflexões sobre nossas experiências atuais, sobre nossa percepção do ambiente que nos cerca. Apesar de acharmos aparentemente ininteligível, difícil, conceitual demais, mercadológico demais, gráfico demais, rápido demais. Apesar de todos esses senões, o leque variado de meios, suportes e conteúdos da arte contemporânea nos trazem questões basilares, imutáveis, que têm a ver com o fazer artístico, com as fronteiras da arte e suas novas linguagens, e com a constante renovação do pacto poético entre artista e público. 

Vejo uma analogia com o cinema brasileiro dos dias de hoje. As produções atuais, umas mais blockbusters, outras, mais autorais, refletem mudanças em relação ao passado. Ou melhor, refletem uma conexão com o que vivemos atualmente, seja a onda de comédias com elenco global e temas ligados a novos padrões de comportamento vividos pela sociedade brasileira, seja a safra recente de realizadores em busca de uma reflexão crítica - de linguagem inclusive - sobre as peculiaridades e mazelas do Brasil do presente. É claro que não há descarte do passado, do legado da história do cinema nacional. O ponto é que muita coisa ficou anacrônica, como as chanchadas, ou mesmo certa obrigatoriedade de filiação com o Cinema Novo ou o Cinema Marginal. Vínculos e inspirações continuarão a existir, porém eles se renovam na medida em que o compromisso é a comunicação com o público que vive o seu hoje. É uma vontade culturalmente natural - e saudável - de retratarmos e sermos retratados nesse presente, assim como os mercadores burgueses do renascimento holandês também o queriam naquele tempo. Ou a arte sacra em seu apogeu, como meio de fortalecer os laços entre igreja e seus seguidores.

Adiantando o futuro, mesmo que breve, estreia dia primeiro de maio, próxima quarta-feira, o documentário "Doméstica", de Gabriel Mascaro. Sete adolescentes tiveram como missão registrar por uma semana a sua empregada doméstica e entregar o material bruto para o diretor realizar, por meio da montagem desses registros, um filme. Entre o choque da intimidade, as relações de poder e os afazeres do cotidiano, o que está em jogo é um olhar contemporâneo sobre o trabalho doméstico no ambiente familiar, num contexto  mais atual impossível das recentes mudanças do marco regulatório brasileiro referente a esse tipo específico de relação trabalhista. 

"Doméstica" vem a público embebido em polêmica, em meio ao debate ideológico que permeia essa questão no Brasil. Muitos dirão que se trata de oportunismo e de violência à integridade dos personagens retratados; outros,  que se trata de um contundente ensaio sobre afeto e relações de poder, uma mistura indistinta em nosso país. Hoje e desde há muito tempo. O olhar é que se atualiza. 
*os nomes são fictícios

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Aceite o frio na barriga...

Daniel (Luke Kirby) e Margo (Michelle Williams) numa das sequências mais poéticas do novo longa da canadense Sarah Polley, "Entre o Amor e a Paixão".
Em 2006 a atriz canadense Sarah Polley fez sua estreia na direção e roteirização de um longa de ficção. “Longe Dela” é um filme sensível, sobre um casal juntos há mais de quarenta anos, forçado a lidar com o Alzheimer que começa a atacar a esposa, vivida por Julie Christie, por cujo papel ela concorreu a um Oscar de melhor atriz.  

Em “Entre o Amor e a Paixão” (2011) – pra variar mais uma infeliz tradução para o português do original Take This Waltz – Polley continua interessada no tema do amor, nas relações homem-mulher. Margo (Michelle Williams) é uma escritora que não sabe sobre o que quer escrever. Casada há 5 anos com Lou (Seth Rogen), ela ainda é bem jovem (28 anos), e se questiona sobre se a vida deve ter, de fato, sentido e significado para tudo, ou se apenas temos que admitir que certas – ou muitas – coisas são vazias e inexplicáveis em nossa existência.

Nessa busca por preencher tudo, por algo além do que a morna felicidade e segurança garantida por seu casamento, Margo tem medo de ter medo, de ficar entre duas coisas, deslocada. Existe ainda um lugar em seu coração, um espaço a ser preenchido pela paixão e o desejo. É aí que entra Daniel (Luke Kirby), um estranho que Margo encontra casualmente no avião, voltando para sua casa em Toronto, e que ela descobre ser seu vizinho de rua. Como ela, Daniel é um artista que tem medo de se arriscar, de se expor, e sobrevive conduzindo turistas em um riquixá (isso mesmo, aquele carrinho oriental de duas rodas, com assento para dois, e puxado por um indivíduo).

A trama se desenvolve sob o prisma de Margo, uma visão essencialmente feminina, focada no contraste de pequenos detalhes e seus ecos e reverberações em outras seqüências do filme. Margo se esforça para seduzir Lou por meio de brincadeiras e piadas, situações quotidianas aparentemente simples e tolas, mas que representam sua tentativa de despertar nela mesma o desejo sexual já em cinzas por seu marido. Contrastando com o fracasso de suas ações em relação a Lou, Daniel descreve, de forma detalhada, na mesa de um bar, como ele gostaria de transar de maneira intensa com ela.  

O real estado entre duas coisas está colocado para Margo – Lou, o marido fiel e tranqüilo; Daniel, o homem vibrante e poético. Não há como evitar o medo de ter medo, e fazer suas escolhas. Ou ainda, fantasiá-las.

Aceite você também essa valsa, e veja como o triângulo Margo – Lou – Daniel nos é muito familiar ao representar nosso medo de abraçar a liberdade, o medo da falta de segurança.

Sempre vamos ter de lidar com uma dose de insatisfação, de não-plenitude, ao longo da vida; porém, temos muitos recursos a nosso alcance para não sermos, definitivamente, infelizes “Madames Bovarys”.