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quarta-feira, 27 de março de 2013

um gif = 7 frames...

Uma impressão fotográfica, um click digital, são registros de um instante. Um frame, uma captação. A somatória de vários frames, postos em movimento, resulta em imagem em ação, cinema.

Para se produzir um gif, um pequeníssimo filme, são necessários 7 frames combinados. E se combinarmos esses frames de forma estática? O movimento ainda assim estará presente? O tempo de uma narrativa, este, sem dúvida que sim. 
"7 frames", por ai weiwei
série de dípticos de lúa ocañas

domingo, 3 de março de 2013

ai weiwei, o artista-espetáculo...

Retrato do artista chinês Ai Weiwei, cuja mostra "Interlacing" pode ser vista no MIS de São Paulo até 14 de abril.

Está em cartaz no Museu da Imagem e do Som de São Paulo (MIS) a exposição de nome "Interlacing", organizada como retrospectiva cronológica da obra do artista multi-mídia chinês, Ai Weiwei, sobretudo no que diz respeito aos seus trabalhos em fotografia e vídeo (quem for à exibição esperando encontrar os trabalhos mais recentes de Ai, como esculturas e grandes instalações, pode se decepcionar; o que veio ao MIS é, de certa forma, uma exposição didática sobre o artista, calcada na sua trajetória de artista militante).


Nascido em 1957, Ai estudou música e artes visuais na China numa época na qual uma elite ainda mais restrita tinha acesso à cultura e ao estudo formal. Na década de 80, muda-se para Nova York para continuar seus estudos, e começa então a se interessar pela cena artística e social da cidade numa época em que esta passava por muitas mudanças (no térreo do MIS estão as fotos em preto e branco, tiradas de modo analógico - portanto, reveladas e ampliadas - de cenas da noite nova-iorquina; do apartamento de Ai, reduto da intelligentsia dos imigrantes chineses nos EUA; do quotidiano da cidade; de protestos; campanhas políticas. A meu ver, é a parte mais interessante da exibição pois ainda há um certo filtro do artista em escolher as fotos mais representativas de suas experiências vividas, em fazer composições; um apuro estético ligado a uma força da juventude que ainda não se corrompeu ao fenômeno de artista-midiático.

Porque, do primeiro andar em diante, o que vemos é o Ai Weiwei militante e engajado, depois de seu retorno à China na década de 90. A partir de então, Ai  envereda pela multiplicidade de plataformas, além da fotografia, documentários, vídeo e instalações. Ele se torna blogueiro e twitteiro, postando de maneira hemorrágica não apenas fotos mas posts de teor crítico em relação à falta de liberdade de expressão em seu país. Daí, em 2011, a censura sofrida pelo artista a mando do Partido Comunista Chinês. 

É interessante lermos no texto da curadoria a relação feita entre o trabalho de Ai e uma certa influência dos ready-mades de Marcel Duschamps. Não vejo essa conexão. Ai estaria muito mais para uma influência de Joseph Beuys do que para a arte conceitual do francês Duschamps. Afinal, Beuys trabalhava com a militância, com o despertar do senso crítico do espectador, com a defesa de utopias. Entretanto, mesmo em relação a Beuys, Ai apresenta muitas diferenças: seu trabalho é normativo, diferente daquele produzido pelo artista alemão; ele denuncia, e ele se vale dessa denuncia para se incluir como personagem. Ai não filtra imagens captadas. Ele as vomita, sem peneira, para o público

Enxergo essa atitude com certa desconfiança. Pois, mais do que um artista cuja obra se fortalece na comunicação com o espectador, Ai Weiwei é um sintoma dos dias hoje. De certo modo, vítima e presa de seus próprios instrumentos. O excesso de informação, o jorro de imagens, a denúncia das grandes catástrofes e da corrupção política na China. Mas, no meio desse lamaçal todo, onde está sua poética? Sua trajetória dentro de determinadas preocupações no diálogo que todo artista tem entre forma e conteúdo?

Muito provavelmente as respostas são as que encontramos na exposição do MIS: a obra de Ai Weiwei é um tipo de orquestração desse grande espetáculo de banalização de imagens e fatos em que nossa era se transformou. Um sintoma de distopia, não uma busca de utopia. Nem de algum tipo de lirismo ou proposta poética dialética. Soma-se a isso, a aura de artista censurado pelo estado chinês, e temos um personagem digno da "sociedade do espetáculo" na concepção do pensador francês Guy Debord. Pois o que Ai Weiwei pretende denunciar é justo aquilo que dá liga e amalgama sua arte, e, de certa forma, a esvazia espiritualmente, rouba sua alma. 

De qualquer forma, a exposição vale ser vista. Para que treinemos nosso olhar num mundo repleto de artifícios e artificialismos. Para identificarmos, para cada um de nós, onde ficam as fronteiras. 

PS: Fiz questão de não postar mais imagens, porque a obra de Ai Weiwei é calcada no looping de centenas de milhares de imagens. Optei, então, por valorizar o texto escrito, as minhas reflexões (por isso, não deixem de ir ao MIS, para que vocês possam, depois de ver a mostra, opinar, discutir, refutar e, assim, agregar elementos aos pontos de vista aqui expressos).

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

árvore genealógica...

Constituída por nove registros fotográficos tirados desde a luz da manhã até o entardecer, "árvore genealógica", de 2000, refere-se ao conjunto de pensamentos, frases, contos e ditos populares que remetem à linhagem ancestral do chinês Zhang Huan, desenhados por três especialistas em caligrafia sobre seu rosto e cabeça até que não sobrasse mais espaço de pele que não estivesse inteiramente recoberto de nanquim.

Ao mesmo tempo que representação da afirmação de suas origens e referências, o rosto enegrecido de Zhang Huan nos fala de anulação, de perda de identidade. Entre esses dois pólos está a noção de que, ao seguirmos nossa trajetória, não temos o controle absoluto sobre ela. Da origem ao fim, seguimos guiados por um certo destino, um certo acaso a determinar nossas escolhas e ações.

No espectro abrangente da arte contemporânea mundial, é inegável a quantidade de artistas cujas obras estão intrinsecamente entrelaçadas com suas personas, suas vidas. É o caso de Zhang Huan. Seu mundo interior, subjetivo, a interpretação pessoal da experiência vivida, são fundamentais como materiais constitutivos de seu trabalho. Isso tem um peso ainda maior vindo de um país como a China. Ou, de outro modo, isso tem um sentido específico tratando-se da cultura chinesa, uma cultura tão rica e antiga, recorrentemente confrontada entre o coletivo e o individual, entre tradição e modernidade, totalitarismo e liberdade. 

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

cai guo-qiang e a arte em camadas...

Montagem da instalação "Reflection - A Gift from Iwaki", concebida por Cai Guo-Qiang na Fundação Faurschou, em Copenhagen.
A equipe de montagem do artista chinês é composta de moradores da cidade japonesa de Iwaki, de onde o barco de pesca veio.
Parte da obra depois de montada, com os fragmentos de porcelana branca.
A outra parte, com a carcaça do barco enfiada no monte de porcelana.
Um dos artistas contemporâneos mais premiados da atualidade, o chinês Cai Guo-Qiang, pousará no Brasil no dia 5 de fevereiro, simultaneamente, no CCBB de Brasília e na sede dos Correios, uma parceria que possibilitou trazer ao Brasil a exibição "Da Vincis do Povo", uma seleção de gadgets e invenções produzidas por camponeses chineses que demonstra como opera a arte de Cai Guo-Qiang (a exposição virá para o CCBB de São Paulo e, depois, para o CCBB do Rio de Janeiro).

A energia da obra de Cai Guo-Qiang advém, em grande medida, da interação do artista com comunidades ou grupos de indivíduos. Como bem demonstra a exibição solo de Cai que termina hoje em Copenhagen, Dinamarca, na Fundação Faurschou. 

Denominada "A Clan of Boats", essa mostra tem como principal atração a instalação "Reflection - A Gift from Iwaki", uma instalação com uma história de quase 20 anos, quando, entre 1993 e 1994, Cai fez uma residência artística na pequena cidade japonesa de Iwaki e, junto com seus moradores, re-significou e recuperou a história da pequena vila através da escavação de um antigo barco de pesca afundado na praia da cidade. Com a ajuda de seus moradores, Cai transformou os restos desse barco em 2 obras, as quais, em 2004, receberam uma homenagem por seus 10 anos de existência. Essa homenagem era composta de outro barco de pescador proveniente de Iwaki, somado a vestígios de porcelana branca vindos de Quanzhou, a cidade natal do artista na China. Daí nasceu "Reflection - A Gift from Iwaki", instalação que percorreu inúmeros museus pelo mundo, contando sempre com a equipe de voluntários de Iwaki para a montagem da obra - 12 toneladas do barco, mais 9 toneladas de pedaços de porcelana branca. 

A amizade de longa data entre Cai Guo-Qiang e os maradores de Iwaki tornou-se, em si, matéria-prima da instalação. Matéria viva, afetiva e emocional. Mais intensamente ainda quando Iwaki foi duramente atingida pelo tsunami de 2011. Cai doou para a reconstrução da cidade recursos levantados em leilões de suas obras. E assim a proximidade entre o artista e a população de Iwaki estreitou-se ainda mais. É justamente o resultado dessa relação de quase 20 anos que a Fundação Faurschou possibilitou recriar. Outra vez, com mais camadas, mais tempo, e mais amizade. 

domingo, 27 de janeiro de 2013

Ren Hang - poeta da realidade...

Foi graças à minha amiga Andrea Lourenço que tomei conhecimento da obra da poeta e fotógrafa chinesa, Ren Hang. Adentrando seu site, percebemos que há uma classificação de suas séries fotográficas pelo ano em que foram executadas. Me detive nas mais recentes, as fotografias que compõem o álbum de 2013. 

O que mais me fascina na arte chinesa contemporânea é a real necessidade - unida ao desejo do artista, o que é mais forte ainda - de falar sobre o indivíduo, sobre o corpo, a sexualidade, o sexo mesmo. Algo que ficou por muitas décadas esmagado por uma ideologia comunista da coletividade. Um corpo morto, um cadáver, um pinto, uma boceta, é apenas 1. E o que vale é o todo. 

Vivemos também, veladamente, tempos totalitários aqui pras bandas do Ocidente. A indústria cultural busca nos uniformizar, nos tornar iguais a um todo, apartando de nós as diferenças. Ao olhar a obra de Re Hang, percebo que, pelas suas lentes, essa luta pela diferença é explícita, e por isso até impregnada pelo realismo de suas imagens. Não há glamour ou estetização. Mas uma poesia da realidade que cada corpo, cada sexo, cada cabeça, cada indivíduo representa.