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quinta-feira, 9 de maio de 2013

autorretrato sem rosto...

Heide Lender é a fotógrafa autorretrada acima. Escondendo o rosto de forma proposital na série "Once Upon", a artista quer dar-se a conhecer pelas referências ao seu redor, pela cenografia, pelo figurino. Tudo, menos a entrega óbvia do rosto. 
"Autorretratos sem rostos" foi o título da oficina organizada pelo Festival Mamute no ano passado, da qual resultaram esses 5 autorretratos.
Na fotografia contemporânea, o subgênero autorretrato vem testando seus limites poéticos. E o autorretrato sem rosto pode ser considerado uma tendência. Não me refiro ao termo pejorativamente. É uma forma do artista/fotógrafo exercitar outras intenções subjetivas e autorais, como o gesto e a performance, a atuação na própria obra, onde a negação do puro registro face a face representa também uma negação de uma redução criativa e, consequentemente, de possibilidades de interpretação.

Ampliar e diversificar os diálogos com o espectador, o alter-ego e, simultaneamente, o interlocutor do autorretratado, transforma-se no objetivo maior. Não se  trata de uma contradição em termos, mas sim de um chamamento à reflexão estética, com o intuito de romper, no receptor da imagem, qualquer relação unívoca entre identidade e identificação. Entre o seu e o meu rosto. A tentativa de estabelecer uma identidade polimorfa, com potencial de mais significados e sentidos. Uma narrativa.

Não me conheço mais porque me olho no espelho. Vou me assombrando e me encantando com o que vejo de mim quando perambulo pelos meus sonhos, medos, memórias de afetos vividos, de lembranças tolas. Um inventário de vários rostos e formas. 

terça-feira, 2 de abril de 2013

i left my heart in phoenix (just a tiny little piece)...

Phoenix, Arizona, the roof of over 1 million citizens making it the 6th biggest city in the Unites States of America, the home of the Grand Canyon National Park and one the top copper producers in the US. But what I thought would be an adventure in the desert by being surrounded by thousands of cactuses, instead, became an urban trek on the search for the finest street art of the Roosevelt Row.

The Roosevelt Row (also known as the "RoRo") is one of the most prominent and creative areas of Phoenix. Although the neighbourhood has been around for over more than a centennial, it was not until the late 90s that it started to become the modern Row of today. Artists saw a huge potential in this part of the town of Phoenix and took over the older homes and crack houses and transformed them into studios since the rents were extremely low. Nowadays, the RoRo is flourishing with vintage clothing shops and bookshops, boutiques, some vegan/vegetarian restaurants and some beautiful and touching artwork.

The colours play an important role in most of the street art of the area. Most of it is vibrant and offers quite a rich palette, which compensates and fills in for colourless natural Arizonian landscape, due to the dryness of the city all year round. There is also a strong presence of Mexican imageries dispersed throughout the Row such as skulls (chicanos), religious themes and even mariachis.

What struck me the most was the essence of every work that I was able to look and contemplate in awe. Each and everyone of the street art was flowing together just like if they were all made to fit together no matter how contrasting they were. The inconstancy created constancy and the commitment to find the equation was rather irrelevant. The Row has picked my curiosity and has stolen my heart. The only thing that I regret is to not have stayed longer.

Matt Parsons, 28, photographer (though all the snapshots above were taken by an iphone) and compulsive traveler, lives in Toronto, Canada

sábado, 30 de março de 2013

esperando bjork...

"Cubo branco" é um termo criado pelo artista e crítico norte-americano Brian O'Doherty para designar espaços expositivos concebidos para que as obras neles instaladas sejam apreciadas supostamente sem nenhuma interferência exterior a elas. Um mundo à parte, uma caixa fora do tempo e do espaço. 

Curioso é pensar que o anexo do atual MAC-USP, antigo prédio do DETRAN, obra de Oscar Niemeyer, havia sido pensado originariamente como uma interação entre natureza e realização humana, luz natural e a rede de pilotis de concreto branco. No entanto, esse local, já ocupado literalmente por uma kafkiana repartição pública brasileira, acabou sendo transformado, de fato, num "cubo branco". Explico: um sistema de ar condicionado e paredes de drywall foram comprados para o espaço do prédio anexo, acabando, assim, com o efeito orgânico pensado por Niemeyer (kafkiana também é a maneira pouco clara em que esse equipamento foi adquirido, uma vez que a ideia original era manter a proposta do arquiteto). De qualquer forma, é impressionante a galeria de exposição montada ao final. Um verdadeiro cubo branco, imponente e arrojado, um dos melhores espaços de exibição vistos recentemente. 

A inauguração do cubo branco do prédio anexo ao MAC-USP, a meu ver, não poderia ter sido mais feliz. Carlito Carvalhosa interveio nesse espaço com a instalação site-specific denominada "Sala de Espera". São dezenas de grandes postes de madeira antigos, anteriormente destinados à rede elétrica da cidade. Dispostos em diagonal e horizontal, cruzando-se entre si, os postes formam uma contraposição à verticalidade e limpeza dos pilotis brancos de Niemeyer. Operou-se como um desvirginar do cubo todo branco, imaculado. Uma irreversibilidade contundente, tornando densa uma atmosfera anteriormente asséptica.

Visitei "Sala de Espera" só, sem nenhum outro indivíduo no recinto. O silêncio amplificou a sensação de profundidade espacial e de deslocamento temporal. Senti-me como num lugar fictício, em que a natureza inóspita, representada pela brutalidade da madeira, conjuga-se à artificialidade do branco monocromático e totalizador. Vieram-me imagens da Islândia, um país que desconheço, mas cuja iconografia me remete aos sentimentos revelados em mim pela obra de Carvalhosa. Naquela sala de espera - espaço transitório e mágico - fiquei esperando Bjork.

PS - fotos e vídeo feitos por mim...


quinta-feira, 28 de março de 2013

estilo animal...

Se tem uma coisa que me deixa sem paciência no mundo das artes visuais é a apropriação de uma ideia alheia, e já bastante trabalhada - inclusive historicamente -, por um determinado "artista" e este apresentá-la a seu público como sendo super original.

A originalidade de uma obra não reside no fato de a referência em que ela se baseia ter de ser nova, ou o seu formato, mas sim em o artista assumir a apropriação e acrescentar a ela a sua própria leitura, sua pesquisa. Mas não me venha posar de criativo na raiz da concepção. Ainda mais quando essa apropriação é praticamente uma cópia do que já foi feito por outros.

Fotos e vídeos com personagens humanos portando máscaras e cabeças de animais - coelhos, lobos, raposas, alces e afins - é uma alegoria bem batida, mas que, vira e mexe, nos deparamos por aí como sendo apresentada feito novidade. 

Sabemos que a iconografia "meio animal, meio homem" tem potência histórica, passando por muitas civilizações e culturas. A fusão do humano e do animal. Sátiros, faunos, centauros, sereias e tritões na mitologia grega. Os deuses egípcios, cada um com uma característica considerada sagrada proveniente da fauna do deserto. A iconografia de horror surgida no romantismo e movimentos com inspiração gótica na cultura ocidental, tipo lobisomens e vampiros. Em comum, a meu ver, é a força extraordinária e, assim, a representação de exceção, de status especial (sagrado ou maldito; heróico ou vilão), que tais seres adquirem pela mistura do "zoo" com o "antropo". 

Na modernidade, houve uma assimilação curiosa dessa iconografia, passando pelo surrealismo até um viés de crítica pastiche à vida pequeno-burguesa da cultura contemporânea. Sem paixões, sem instintos. Uma brincadeira com o desejo domado, mas também com a banalização da violência. 

A série "Zoo Portraits", do catalão Yago Partal, é um trabalho bem-humorado que se apropria desse conceito: trata-se de representações de animais que curtem se vestir com estilo e posar para fotos como modelos. Há uma dose de originalidade na medida em que há um conceito pop de representar as características de cada animal de acordo com seus respectivos looks. Engraçado. Mas nenhuma grande novidade. O que não tem problema, pois claramente Partal não quer estar na vanguarda da arte contemporânea, uma vez que tritura e condensa conceitos pops e acessíveis. 

quarta-feira, 27 de março de 2013

um gif = 7 frames...

Uma impressão fotográfica, um click digital, são registros de um instante. Um frame, uma captação. A somatória de vários frames, postos em movimento, resulta em imagem em ação, cinema.

Para se produzir um gif, um pequeníssimo filme, são necessários 7 frames combinados. E se combinarmos esses frames de forma estática? O movimento ainda assim estará presente? O tempo de uma narrativa, este, sem dúvida que sim. 
"7 frames", por ai weiwei
série de dípticos de lúa ocañas

domingo, 24 de março de 2013

leah gordon e a etno-fotografia...


Todo ano, Jacmel, uma cidade litorânea no sul do Haiti, celebra o Carnaval. O Carnaval haitiano ainda reflete as tradições étnicas do caldeirão cultural do país. Mistura de festejos medievais, raízes africanas, mitologia voodoo, e sátira política, os monstros do bestiário carnavalesco da ilha caribenha saem às ruas durante os dias de Carnaval para festejar, celebrar, espiar os fantasmas e espíritos ruins e, ao mesmo tempo, exercer a crítica social e política. 

Na série denominada "Kanaval", toda ela em preto e branco, a fotógrafa britânica Leah Gordon documenta a festa popular em Jacmel. Com uma obra focada no foto-jornalismo, na fotografia etnográfica e antropológica, Gordon consegue transmitir, em seus registros, a potência primitiva do Carnaval haitiano, dando a ver a rica iconografia utilizada pela população durante a festa - vide os cornos, chifres, máscaras -, e seu lado sombrio, pesado até. 

Aqui, vem-me à cabeça, uma analogia com a obra do etno-fotógrafo francês, radicado baiano, Pierre Verger. Suas fotos, também em branco e preto, são ícones representativos da cultura afro-religiosa ainda bem viva nessa região do Brasil. Uma cultura onde a violência também ocupa um espaço importante.

Quando fui a Salvador pela primeira vez, tive essa sensação quase que imediatamente. Salvador não é suave. É lustrosa, ruidosa, fedida e cheirosa, colorida, poluída, barroca, negra, mestiça, portuguesa, uma cidade cuja população parece carregar nas costas um fardo, um peso que vem tanto da violência da escravidão, como da violência primitiva da religião iorubá.

A visão de universo e mundo a unir Haiti e Bahia está fincada numa força primitiva sombria, guerreira e metálica, sensual e sexual. Força essa que traz consigo um peso. Peso que se soma à violência da escravidão, violência essa que até hoje vibra nesses lugares. 

Um ato fotográfico talvez seja menos violento do que a ação de pintar sobre uma tela, ou de moldar uma escultura. Mas pode se tornar tão ou mais violento quando, sob um olhar estrangeiro, invade um mundo de personagens próprios e espontâneos, acostumados a uma cultura muitas vezes percebida como bárbara ou tacanha aos olhos do ocidental "civilizado". Esse olhar se choca com o que vê e representa. Admitir esse estranhamento, essa "batida de frente" com o objeto representado transforma-se, por fim, naquilo que confere a ele, como obra de arte, potência e encantamento. As fotos de Leah Gordon atuam, mais do que falam, nessa direção e sentido. 

sábado, 23 de fevereiro de 2013

o autorretrato ou a esfinge...

Laura Cumming, crítica de arte do The Observer, escreveu "Uma Face para o Mundo: Sobre Autorretratos". O livro é o mais recente estudo do qual tenho notícia a respeito do tema do autorretrato na história da arte. Aparentemente um tema tão simples, talvez banal, mas só na aparência. Pois o autorretrato esconde e revela uma série de pré-conceitos, interpretações anacrônicas e muitas vezes restritas, de um tema desde há muito presente nas artes plásticas, com o agravante de ter se tornado muito mais recorrente e problemático nos dias de hoje. Afinal, como diz Cumming, enquanto houver a luz do sol, haverá o nosso reflexo em espelhos, poças d'água, portas de vidro, janelas de automóveis. A questão da representação do ego, do retrato de si próprio, está indissociada a um mistério provocante - como do meu próprio inconsciente, só tenho conhecimento de mim, do meu rosto, por intermédio de um outro meio: os espelhos, as poças, de água, as portas de vidro, as janelas dos carros. E isso sempre se dará de forma parcial, esparsa, nunca inteira, objetiva.

Desse primeiro pressuposto, advém um raciocínio fundamental. O de que não há uma correlação entre as teorias do consciente do século XIX e a emergência dessa consciência de si para o artista. Muitas vezes, a história da arte busca ora generalizar ora datar determinados movimentos ou tratamentos de temas artísticos como forma de explicá-los mais objetivamente. Mas nem sempre essas tentativas se sustentam. Como artistas do porte de Jan van Eyck ou de um Albrecht Dürer (estamos falando de fim da Idade Média, início do Renascimento) supostamente não tinham consciência de si próprios, quando se retrataram, respectivamente, em "Retrato de um Homem com Turbante" (1433) e em "Autorretrato", de 1500? Havia a necessidade de um meio por onde se ver para se retratar, mesmo que uma memória de si. A consciência de si é intrínseca porque inseparável do fazer artístico de um autorretrato. 

Mais para frente, vemos Rembrandt se retratando em diferentes fases de sua vida. Diego Velázquez como personagem de sua própria obra, em "As Meninas", como o artista mesmo, chamando o espectador, através de sua técnica de perspectiva, para participar desse testemunho, dessa ampla consciência. E, por ora, temos Francisco Goya, um pintor extremamente preocupado com a questão da representação, de como trazer essa condensação poderosa daquilo que se dá a ver de inúmeras formas e nunca de uma única (com a família real espanhola, conseguiu retratá-la como nobreza e decadência, ao mesmo tempo; o horror das guerras napoleônicas na Espanha; e a si próprio, com uma curiosidade de quem olha pra fora, e não para dentro).

Nunca teremos acesso aos conteúdos, pensamentos e sentimentos humanos a não ser que eles se transformem em ações, discurso, obras. É nessa concepção que reside a força do auto-retrato. Numa aparente revelação de um mundo interior, o que se vê, ao contrário, é o externo, a carcaça. Porém, um externo transfigurado pelo desenho do artista, seus traços, cores, pinceladas, suas luzes e sombras, seus disfarces. É a face para o mundo; uma revelação, mas, acima de tudo, rostos inescrutáveis, esfinges.
"Retrato de Homem com Turbante", de 1433, auto-retrato do pintor holandês Jan Van Eyck
"Autorretrato",  do alemão Albrecht Dürer, de 1500.
4 autorretratos do artista holandês Rembrandt: do primeiro até este último, cronologicamente executados em 1629, 1634, 1643 e 1659.
"As Meninas", do espanhol Diego Velázquez, de 1656.
2 autorretratos de Francisco Goya: o primeiro, de 1815; o segundo, de 1826.