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segunda-feira, 3 de junho de 2013

o medo da polêmica...

Não sei se é por conta dos meus óculos novos; se é por que eles me remetem à figura estranha do fotógrafo americano Terry Richardson; se isso se junta ao post sobre o filme ganhador da palma de ouro no festival de Cannes, no qual longas sequências de sexo explícito entre as personagens principais causaram furor e elogios da crítica; não sei se por causa do meu total repúdio ao rebaixamento e à violência impostos à condição da mulher em vários países do oriente (falei dos "acid attacks"); não sei se por que ontem foi a parada gay aqui em São Paulo; não sei se por que adoro as mulheres (leiam-se modelos) que fazem parte desse editorial de 2009/2010 da revista Purple Fashion; se por que o estilo de Richardson fica entre o vulgar e o erótico; se é por conta de uma incoerência minha, gostar de corpos femininos que correspondem a 0,01% da população de mulheres no mundo; se não é também outra contradição defender a igualdade de direitos entre os gêneros e curtir esse editorial; ou se, no fundo, eu não estou me tornando um chato politicamente correto e confundindo as bolas. De toda essa bagunça retórica, tiro o seguinte: mesmo sendo moda, mesmo sendo comoditizada, as imagens femininas retratadas no editorial da Purple, de modelos nuas simulando situações homo-eróticas, são algumas das poucas coisas boas que o capitalismo permite. Ele pode arrasar com costumes ancestrais, com valores tradicionais, com laços e vínculos culturais. Mas pode também, por meio da igualdade de direitos de consumo - claro, se você tiver dinheiro -, propiciar o exercício individual da liberdade sexual. Ou, no pior dos mundos, ficarmos a meio-caminho: sem referências culturais e à mercê do capital. 
Fui longe demais nos argumentos, tenho consciência. Justifico-me excessivamente, eu sei. Já se tornou uma característica minha. Muito provavelmente reforçada pelo medo da polêmica, de ser mal-interpretado ou entendido. Inevitável, como também inevitável o acirramento de nossas contradições em tempos hepáticos como os de hoje. Então fiquemos simplesmente com as fotos desse editorial clicado por Terry Richardson para a Purple, com Freja, Magdalena, Eniko e Abbey Lee. E cada um que tire sua própria conclusão, faça seu julgamento e sua apreciação. Eu confesso que gosto - dessas meninas, do ensaio, e da polêmica... Do Terry Richardson, non troppo...

domingo, 19 de maio de 2013

o mito da caverna...

Vista do Central Park, face norte, nas 4 estações do ano.
A chamada câmara escura de orifício representou os primórdios da câmera fotográfica como a conhecemos na modernidade. Desde a Idade Média, por meio da técnica da câmera escura, foi possível entender aspectos científicos dos fenômenos ópticos, como, por exemplo, a propagação retilínea da luz. E, assim, desenvolver meios de captar e fixar imagens.

Pegue uma caixa ou o cômodo de uma casa, numa versão ampliada, e vede suas paredes com um material opaco e totalmente preto. Deixe apenas um pequeno orifício aberto, em uma das paredes, por onde a luz do exterior irá penetrar. Os raios de luz que iluminam o objeto ou a paisagem no exterior da caixa passam pelo pequeno buraco e projetam na parede oposta a ele uma figura idêntica ao objeto ou a paisagem externa, só que invertida (o fato de a imagem ter forma semelhante ao objeto ou à paisagem e ser invertida evidenciam a propagação retilínea da luz).
Imagens da Ponte do Brooklyn, invertida e não-invertida.
Vistas da Ponte de Manhattan: a utilização de um prisma reverte a inversão da imagem projetada. 
Eis o princípio rudimentar da máquina fotográfica. Se estamos, como observador, dentro da câmera escura, conseguimos ver essa imagem projetada de cabeça para baixo. E se colocamos um papel filme ou fotográfico na região onde essa imagem invertida se forma, é possível, após algumas horas de exposição, captar e registrar essa imagem (voilà o princípio da máquina fotográfica e da fotografia). 
Times Square projetada.
Desde 1991, o fotógrafo naturalizado norte-americano de origem cubana Abelardo Morell vem fazendo experiências com o princípio da câmera escura. Primeiro num quarto de sua casa. Depois, avaliando os resultados bem-sucedidos, ampliou o projeto não apenas para outros locais mas também passou a utilizar um prisma para gerar uma imagem não-invertida, filme colorido, lentes mais poderosas no sentido de tornar as imagens refletidas mais nítidas e brilhantes. 
Visões de Veneza.
No início analógico, levavam-se entre 5 e 10 horas de exposição para que uma imagem se fixasse na película. Com o digital, esse tempo encurtou sobremaneira, o que rendeu agilidade ao processo criativo de Morell. Imagens mais nítidas, mais rapidez e fluência técnica abriram-lhe mais espaço para pensar a composição da parede que iria receber a imagem refletida e qual seria essa imagem, e de que forma ela seria ou não trabalhada, distorcida. Ganhou força e contundência o choque entre exterior e interior, entre a imagem de fora e como ela passava a ser recodificada internamente. 
Catedral de Antuérpia, Bélgica, projetada sobre parede na qual o espelho antigo está encostado.
Boston.
Pátio interno de castelo sobre dormitório coletivo.
Parafraseando o mito da caverna de Platão, cabe a nós, espectadores, termos consciência de quantas realidades distintas podemos criar de uma mesma cena,  de um mesmo objeto. Os registros de câmera escura de Morell tornam, a meu ver, ainda mais instigantes a questão das várias extensões da realidade, na medida em que trabalha o fenômeno óptico em si, diretamente. A brincadeira de sobreposição e de contraste de imagens brinca com nossos olhos, fala diretamente a esse que é o sentido mais básico do ser humano, por intermédio de uma técnica que, teoricamente, seria a cópia fiel do real.  
Vista de Florença - primeira dessa série de fotos - e paisagens da Toscana.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

crepúsculo...

Kyle Thompson é desses fenômenos da blog-arte. 21 anos, residente da grande Chicago, descreve-se como apaixonado por bosques desertos e lugares abandonados. Quase a maioria das fotos que posta foi tirada por ele mesmo. O mais engraçado são os reblogs via tumblr de seus retratos meio "saga crepúsculo". Um deles diz "tenho certeza de que você segue esse jovem artista,  caso contrário, suas referências não são tão ricas quanto poderiam ser". Falaram pra seguir, então...

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

árvore genealógica...

Constituída por nove registros fotográficos tirados desde a luz da manhã até o entardecer, "árvore genealógica", de 2000, refere-se ao conjunto de pensamentos, frases, contos e ditos populares que remetem à linhagem ancestral do chinês Zhang Huan, desenhados por três especialistas em caligrafia sobre seu rosto e cabeça até que não sobrasse mais espaço de pele que não estivesse inteiramente recoberto de nanquim.

Ao mesmo tempo que representação da afirmação de suas origens e referências, o rosto enegrecido de Zhang Huan nos fala de anulação, de perda de identidade. Entre esses dois pólos está a noção de que, ao seguirmos nossa trajetória, não temos o controle absoluto sobre ela. Da origem ao fim, seguimos guiados por um certo destino, um certo acaso a determinar nossas escolhas e ações.

No espectro abrangente da arte contemporânea mundial, é inegável a quantidade de artistas cujas obras estão intrinsecamente entrelaçadas com suas personas, suas vidas. É o caso de Zhang Huan. Seu mundo interior, subjetivo, a interpretação pessoal da experiência vivida, são fundamentais como materiais constitutivos de seu trabalho. Isso tem um peso ainda maior vindo de um país como a China. Ou, de outro modo, isso tem um sentido específico tratando-se da cultura chinesa, uma cultura tão rica e antiga, recorrentemente confrontada entre o coletivo e o individual, entre tradição e modernidade, totalitarismo e liberdade.