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quinta-feira, 4 de julho de 2013

o alemão e o coiote...

Em 1974, o galerista alemão René Block recebeu em sua filial da East Broadway de Nova York seu amigo e artista representado Joseph Beuys para uma performance de 3 dias. Faltava ainda a Beuys, já então um reconhecido artista conceitual na Europa, conquistar a América. E ele o fez à sua maneira.

Denominada "I Like America and America Likes Me", a obra começa quando o artista alemão desembarca no aeroporto JFK e imediatamente é envolvido num cobertor de feltro e levado de ambulância diretamente para a galeria de Block (primeira foto acima), lugar onde fica confinado por 3 dias junto com um coiote selvagem trazido especialmente para a performance. Munido de uma indumentária especial, a qual se torna símbolo de sua arte - o paletó de feltro, a manta, o cajado de pastor, o triângulo de metal, a cama de palha - Joseph Beuys interage 8 horas a cada dia diante do público dentro do recinto da galeria de arte.

No início, há certa hostilidade entre coiote e artista, que brinca de xamã, gira envolto em sua manta, cajado na cabeça, provoca o animal selvagem. Este reage com pulos, mordidas, avança sobre Beuys, rasga seu manto ritualístico. Com o passar dos dias, porém, animal e homem começam a conviver, coabitar, até que, no último dia, Beuys abraça o coiote, sem que o bicho ofereça resistência. Terminada a performance, o artista alemão volta novamente de ambulância direto para o aeroporto, e então para a Alemanha natal.

Só o que Beuys acaba por conhecer da América é um símbolo selvagem de resistência à colonização e ocidentalização do país, uma América primitiva. Uma América que parece gostar dele. Ou que simplesmente aceita-o em sua indiferença de animal irracional. Resta a alegoria do artista, seu gesto. Seu olhar subjetivo para um país de cultura intrincada e polêmica, principalmente nos anos 70. A opção pela força da metonímia, o todo por uma micro-parte. Uma ressignificação do diálogo entre a velha Europa e a terra das oportunidades, do então novo império capitalista do Ocidente. Uma conversa que se restabelece a partir de um passado primordial, velho também. Mas um passado tido como puro, autêntico e essencial.

Eu gosto de Beuys, de coiotes, e da América. 

quinta-feira, 2 de maio de 2013

o olhar do outro...

Série de fotos do projeto "Wait Watchers", de Haley Morris-Cafiero.
Em tempos de renovação e reafirmação de preconceitos, já não basta mais ser mulher, ser negro, ser gay. Ter um corpo fora dos padrões ditados pelo mercado de consumo era o novo preto que faltava no mundo fashion dos julgamentos sociais. "Fora dos padrões" é eufemismo. Sejamos mais diretos. Quando você está dentro de um ônibus e um passageiro entala ao tentar passar pela catraca - motivo: seu porte avantajado -, você desvia o olhar ou não resiste, e encara o constrangimento da cena? 

À fotógrafa norte-america Haley Morris-Cafiero, não foi possível resistir à posição passiva de apenas receber o olhar julgador dos outros por suas medidas XXL. Morris-Cafiero decidiu contra-atacar. Saiu de trás da câmera e colocou-se diante dela, em situações do quotidiano aparentemente banais, como atravessar uma rua, tomar um sorvete, tirar foto como turista ou ir à praia. A única exigência: gente ao redor, para que, por intermédio da colaboração de um outro fotógrafo com câmera em punho, fosse possível registrar o olhar dos outros (ou do Outro psicanalítico, todos os outros em um só) em relação à sua figura "fora dos padrões". 

Já falamos aqui um pouco sobre a questão do autorretrato, e um pouco também sobre performance, suportes em que o artista se insere no objeto da criação artística. Mais intimidade, maior controle dos resultados, além de uma conexão subjetiva mais forte com o espectador, são razões alegadas para essa participação do artista como matéria. Em especial, aqui, o projeto "Wait Watchers" de Morris-Cafiero tem um ingrediente a mais, peculiar. A questão do preconceito e, mais ainda, do registro revelador do olhar dos outros sobre nós. Não à toa vivemos tempos em que já incorporamos uma visão distorcida de nós mesmos, em função da "doença de agradar" a tudo e todos. Impossível, subjetivamente, dar conta disso, sem gerar neuroses ou paranóias, se todos os parâmetros de validação do nosso ego estão fora, num imenso desequilíbrio. Morris-Cafiero que o diga. Outros, porém, já diriam: por que ela não dá uma emagrecida?

quarta-feira, 1 de maio de 2013

o artista não está presente...

Tino Sehgal e seus voluntários performers; acima, registros da obra "These Associations", em cartaz na Tate Modern de Londres no ano passado.
Tino Sehgal é o exemplo mais bem acabado, na minha opinião, do que significa ser um artista no topo da cadeia econômica e criativa da arte contemporânea. Sua obra representou a Alemanha na Bienal de Veneza de 2005, a bienal de maior relevância em termos de chancela crítica da atualidade; entre as inúmeras exposições individuais feitas por Tino recentemente, destaca-se a obra "This Progress", em cartaz em 2010 no Museu Guggeinheim de Nova York; além disso, ele foi escolhido para fazer parte da Documenta XIII, evento que se realiza de 5 em 5 anos na cidade de Kassel na Alemanha, o qual ocupa a cidade toda com a vanguarda da vanguarda da arte contemporânea e suas conexões com releituras do passado (em Kassel, Tino apresentou "This Variation", no porão de um hotel). No ano passado, foi a vez da Turbine Hall da Tate Modern em Londres, com "These Associations". E, ontem, Tino foi um dos artistas anunciados na lista de 4 concorrentes ao Turner Prize, o mais importante prêmio de arte contemporânea do Reino Unido, e um dos mais badalados do mundo das artes. Em resumo, Tino Sehgal está na crista da onda, no ápice. 

No entanto, o mais intrigante em tudo isso é nos voltarmos para o trabalho de Tino Sehgal, para seu suporte, seu conceito. Como uma obra foi capaz de conquistar tantos símbolos de reconhecimento do mercado e da crítica internacionais sem ser passível de aquisição, seja por um acervo de museu ou coleção particular?

Tino Sehgal trabalha na fronteira entre performance, teatro e dança, recrutando voluntários que atuam no espaço entre regras demarcadas e improviso. Nada mais intangível. Na Documenta XIII, bastava o visitante seguir um mapa para se deparar com o Grand City Hotel Hessenland. A cada 2 horas, no porão do prédio, "This Variation" acontecia. O espectador adentrava um ambiente completamente escuro e, aos poucos, acostumava-se à atmosfera ao redor. Havia sons, barulhos, vocalises e histórias sendo contadas por indivíduos que já estavam ali dentro. Havia movimentos coreografados, corridas, paradas bruscas, aproximações inesperadas junto ao público. Ao final, as luzes acendiam-se completamente: 20 performers voluntários cantavam Good Vibrations dos Beach Boys, enquanto saíam por uma porta lateral. Puff, fim da obra. E começo de outra. Quem eram os espectadores e os agentes da obra de arte: público ou performers? Ambos? Uma obra que se dava à fruição por conta da experiência coletiva do momento e, a posteriori, pelas memórias que se formaram em cada um dos participantes, nas emoções suscitadas. 

Com "These Associations" não foi diferente. O grande salão industrial da Turbine Hall da Tate Modern não era ocupado por nenhuma instalação gigantesca, nem por esculturas ou conjunto delas. Havia apenas pessoas, parte deles um grupo de uma dezena que se movimentava feito um cardume de peixes - aglutinava-se em movimentos febris e separava-se a esmo repentinamente. Nesse movimento de dispersão, os "artistas" abordavam o público com depoimentos íntimos os mais variados, "minha irmã está se recuperando de um câncer", "minhas histórias de amor foram um fracasso", "sofro de claustrofobia", "foi um choque minha chegada à Inglaterra". Viam-se alguns espectadores retornarem esses depoimentos com os seus próprios. Diálogos estabeleciam-se, mas não eram obrigatórios que acontecessem. E então o cardume voltava a se movimentar pelo salão, em movimentos aleatórios, ao som de algum oratório clássico. 

Não posso escrever aqui a minha impressão pessoal sobre a obra de Tino Sehgal. Nunca estive em uma delas, só soube dessas experiências a partir de artigos de jornal, de críticos, de depoimentos de outros. Em comum, a pulga atrás da orelha, o gatilho puxado, "por que fiquei tão mexido com uma experiência aparentemente tão banal?" Afinal, não há obra de arte, no sentido estrito do termo, na obra de Sehgal. Há um compartilhamento de emoções, há uma experiência, uma vivência coletiva, já que não se pode falar também num espetáculo de teatro ou de dança, no sentido convencional. O suporte e a técnica desses experimentos são pessoas e a interação entre elas. Só. Um embaçamento da fronteira do que é considerado arte que produz o combustível mais potente para as turbinas da arte contemporânea: ser, simultaneamente, questionável e encantador. 
(abaixo, registro em vídeo de "these associations"...).

sábado, 6 de abril de 2013

entre poesia e mercadoria...

Título da curadoria feita por Monica Espinel, uma das escolhidas pelo laboratório curatorial da sp-arte 2013
Impressão fotográfica de Francesca Woodman para "a pele que habito": a consciência e questionamento do nosso próprio corpo, como objeto, como meio, como distorção.
"Livro de areia", de Marilá Dardot: a leitura do fragmento de Heráclito só é legível através de seu reflexo no espelho. Fragmento que aborda a transitoriedade da existência, o eterno retorno, ser e vir a ser.
Objeto da série "Vis-à-vis", de Thiago Honório: espelho, chifre de boi e lentes de aumento, intermediando a relação de ver, se ver e ser visto.
Print fotográfico da série "Portadores", criada por Almudena Lober e Isabel Martinez, na qual anônimos emprestaram seus corpos para tatuagens cujos desenhos conversam com as respectivas partes em que foram inscritos, bem como com ações físicas feitas pelos portadores.
Pela segunda vez consecutiva, a feira internacional de arte de são paulo (sp-arte), edição 2013, promove uma ação institucional-educativa dentro da programação da feira, denominada "laboratório curatorial". 


Trata-se de selecionar projetos de novos curadores que trabalhem, além de conceitos próprios e perspectivas críticas, o diálogo com as obras e artistas representados pelas galerias que participam da feira. Em outros termos, para que a sp-arte não permaneça apenas no terreno dos negócios e dos cifrões - isto é, no campo da mercantilização da arte, puramente - a proposta do laboratório curatorial é abrir e alargar brechas entre a obra de arte como commodity, mercadoria com preço, e ela, obra de arte, como fruto de um ato criativo, de um contexto mais amplo, o campo da poética, da forma, da manifestação artística como irreverência, questionamento e discussão do mundo ao redor. 

Aparentemente pode-se pensar numa certa hipocrisia se consideramos tal iniciativa de modo ingênuo, como que autônoma e destacada do caráter feira comercial da sp-arte. Porém, não é com esse viés que o laboratório curatorial foi concebido. Não estamos num mundo de inocentes. O próprio texto de apresentação, na capa do folder, assume essa posição, a de tensionar um diálogo entre a disseminação crítica da obra de arte e o cenário de compra e venda em que ela também está inserida. 

A teoria do conhecimento apercebeu-se, com o desenrolar histórico das ciências exatas e humanas, de que ao lado de um conhecimento mainstream, isto é, hegemônico, convivem outras formas, teorias de compreensão e entendimento dos mesmos objetos de estudo - na física, na química, nas ciências sociais. É inevitável, no entanto, que alguns aspectos das teorias hegemônicas acabem por envelhecer, deixam de ser válidos na medida que não conseguem mais explicar os fatos a que se propõem dar uma organização causal ou contextualização lógica. E é aí, nesse ponto, em que as teorias marginais, off-road do status de legitimação científica dada por uma elite intelectual e acadêmia, entram em cena. Elas são fagocitadas pelo sistema padrão, conservador, a fim de arejá-lo, refrescar os metodologias de conhecimento e as teorias científicas. 

Processo análogo ocorre no mundo das artes em geral, pois a indústria cultural é voraz por novidades, por carne fresca e temperos exóticos, aparentemente críticos e inóspitos a ela, mas sem os quais não haveria renovação da mesmice.  A destruição criativa imposta pelo capitalismo mata, trucida, masca, come e engole tudo aquilo que puder lhe trazer rejuvenescimento e frescor.

De volta ao laboratório curatorial da sp-arte 2013, seus resultados trouxeram à discussão quatro pesquisas, empreendidas por quatro curadores, as quais não apenas indagam quais são as fronteiras do suporte artístico nos dias de hoje, se eles são passíveis de apropriação mercantilista (como vou vender uma performance?), como também dão a ver aos consumidores e apreciadores como a produção artística, no caso, a contemporânea, nasce num contexto poético, de manisfestações críticas - formais ou engajadas -, de um solo fértil que necessita de um mínimo de liberdade e espontaneidade para que, então, possa vir a ser abatida como presa a ser dependurada na vitrine do açougue.

Dramático esse final, sem dúvida. Porém, a realidade que se impõem exige esse equilíbrio tênue entre curto e longo prazo, entre o já assimilado e o experimentalismo, entre o duradouro e o efêmero, entre a poesia e a mercadoria. Difícil é mantermos esse pêndulo em movimento, esse tecido sempre tensionado, esticado.

PS-todas as fotos captadas pelo meu tele-móvel...

A curadoria de Tomás de Toledo, denominada "o enunciado em questão",  fala da palavra, da literatura e linguagem, como objetos, símbolos e formas apropriadas visualmente pela arte contemporânea (acima, frase de Proust, em print dourado, trazendo um contraste com a extensa obra do clássico escritor francês; por Mateo López).
"High Tension", impressão fotográfica de Anna Maria Maiolino, para a curadoria de Tomás Toledo.
Sandra Gamarra questiona o saber colonizador como algo artificialmente construído, também em "o enunciado em questão".

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

árvore genealógica...

Constituída por nove registros fotográficos tirados desde a luz da manhã até o entardecer, "árvore genealógica", de 2000, refere-se ao conjunto de pensamentos, frases, contos e ditos populares que remetem à linhagem ancestral do chinês Zhang Huan, desenhados por três especialistas em caligrafia sobre seu rosto e cabeça até que não sobrasse mais espaço de pele que não estivesse inteiramente recoberto de nanquim.

Ao mesmo tempo que representação da afirmação de suas origens e referências, o rosto enegrecido de Zhang Huan nos fala de anulação, de perda de identidade. Entre esses dois pólos está a noção de que, ao seguirmos nossa trajetória, não temos o controle absoluto sobre ela. Da origem ao fim, seguimos guiados por um certo destino, um certo acaso a determinar nossas escolhas e ações.

No espectro abrangente da arte contemporânea mundial, é inegável a quantidade de artistas cujas obras estão intrinsecamente entrelaçadas com suas personas, suas vidas. É o caso de Zhang Huan. Seu mundo interior, subjetivo, a interpretação pessoal da experiência vivida, são fundamentais como materiais constitutivos de seu trabalho. Isso tem um peso ainda maior vindo de um país como a China. Ou, de outro modo, isso tem um sentido específico tratando-se da cultura chinesa, uma cultura tão rica e antiga, recorrentemente confrontada entre o coletivo e o individual, entre tradição e modernidade, totalitarismo e liberdade. 

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Iris Van Herpen ● Haute Couture Spring/Summer 2013



Iris Van Herpen desfilou anteontem sua coleção de alta-costura primavera/verão 2013 em Paris. Foi sua quarta coleção como convidada e membro da seleta Câmara Sindical de Alta Costura. 

O trabalho da designer de moda holandesa de 28 anos, estagiária de Alexander McQueen, em Londres e Claudy Jongstra, em Amsterdam, é baseado em dois pólos - de um lado, no diálogo com as artes visuais, escultura e aquitetura, sobretudo; de outro, na pesquisa de alta tecnologia de engenharia têxtil. O resultado são indumentárias marcadas pela estamparia em 3D, desenvolvida em parceria com o Media Lab do MIT norte-americano, e a arquiteta canadense Julia Koerner e o estudio Materialise, uma inovação no mundo da alta-costura, não apenas pela novidade, mas pelo alto nível de acabamento de suas propostas futuristas e orgânicas. 

Na mais recente coleção de Van Herpen, a influência da eletricidade no corpo humano foi a tônica dominante. Em colaboração com o artista neo-zelandês Carlos Van Camp, cujo obra tem como conceito a manipulação de altas cargas de eletricidade e seus efeitos sobre o corpo humano, mais o trabalho do arquiteto canadense Philip Beesley, também interessado nos efeitos da química e da eletricidade sobre estruturas sólidas, e seus impactos nos seres humanos.  

Se olharmos os créditos de todos os colaboradores por trás do fashion show de Van Herpen veremos que a lista é longa, muito provavelmente mais extensa do que os de outras coleções, pois se trata, aqui, de uma trajetória consistente de diálogo da obra da designer holandesa com um grupo de artistas e pesquisadores colaboradores. 

Não há acaso no resultado energético e poderoso provocado pelas coleções de Iris Van Herpen. Há sim uma grande paixão à arte, ao estudo, à pesquisa, e à inovação. Suor-hora, dedicação e, algo que me é muito caro, abertura para compartilhar e dialogar com outros artistas e suas experimentações. O resultado vocês conferem aí em cima...


terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Theater HORA & Back to Back Theatre - Portrait

Quem tem medo de se expor?

Cena do espetáculo "Disabled Thater", da trupe Theater Hora, dirigido por Jérôme Bell e apresentado na 13o. edição da Documenta de Kassel na Alemanha no ano passado.
Quando perguntei ao curador de artes visuais do CCSP, Márcio Harum, o que ele destacaria na sua experiência de trabalhar na 13o. edição da Documenta de Kassel, mostra de arte contemporânea realizada a cada 5 anos na cidade alemã - que, ao longo de 100 dias, transforma-se no "umbigo" das artes visuais no mundo - ele foi rápido em sua resposta: o espetáculo "Disabled Theater", dirigido pelo coreógrafo francês, Jérôme Bell, com a companhia suíça Theater Hora cujos componentes apresentam algum tipo de deficiência mental.

O grupo, fundado em 1993, em Zurique, trabalha com atores e dançarinos que vão dos 18 aos 51 anos, sete deles com Síndrome de Down - e todos profissionais que recebem salários e possuem uma agenda repleta de tournées internacionais. 

Especificamente em "Disabled Theater", Bell botou em prática seus conceitos de metalinguagem teatral e de dança com a trupe do Hora. Encarregados, cada um dos atores/bailarinos - a desempenhar um papel comandado pela voz do coreógrafo francês, mas com abertura para o improviso, o espetáculo é composto pela percepção de que cada artista tem de sua deficiência. Há momentos de humor, de irreverência, mas também dramáticos, quando um deles, por exemplo, revela que sua mãe achou o espetáculo um circo de aberrações (freak show), apesar de ter gostado; ou num outro momento em que uma jovem se emociona ao se lamentar por ser portadora de Síndrome de Down. 

A parceria de Bell com o Hora é resultado de mais de uma década de pesquisa do francês com o que ele denomina ser "documentários teatrais", isto é, colocar em cena atores e bailarinos que expressem sua subjetividade em relação ao próprio trabalho. "Eu peço aos intérpretes que sejam eles mesmos em cena", diz Bell. 

Mas qual o significado dessa concepção quando estamos falando de um grupo de atores portadores de deficiência mental? Existe abuso? Algum limite foi ultrapassado? Na opinião de Harum, que viu o espetáculo mais de uma vez em Kassel, muito pelo contrário: há uma imensa dignidade na performance da trupe do Hora uma vez que a espontaneidade e liberdade de expressão que a condição de seus integrantes proporciona nos atordoa em nossa pseudo-normalidade, em nosso engessamento comportamental; desvela nossa imensa fragilidade diante do mundo e da vida.

Acredito cada vez mais, pelo exemplo do Hora, que o discurso do "politicamente correto" acaba por prestar muito mais um desserviço à arte, ao afirmar que há limites ultrapassados na exposições dos atores deficientes ou que eles, de alguma forma, estão expostos ao ridículo. Afinal, o que se quer fazer com a arte se se retira dela sua contundência?

Bem que o Theater Hora podia arranjar uma brecha em sua agenda lotada e dar uma passada aqui pelo Brasil... (abaixo, o vídeo "Celebrity", colaboração do Back to Back Theatre com o companhia suíça Hora)... 


terça-feira, 8 de janeiro de 2013

pontos, bolas, linhas, redes, flores, tentáculos...

Retrato de Yayoi Kusama aos 10 anos de idade.
A obra de um artista nasce de obsessões. Geralmente, quanto mais obsessivo o artista, mais longeva, prolífica, e diversa é sua obra. Mais sua imagem se confunde e se funde a essa obra. E mais ampla a sua influência na produção de outros artistas.

Yayoi Kusama é uma artista plástica obsessiva-compulsiva. Nascida em 1929, no Japão, migrou para os Estados Unidos em 1957, instalando-se em Nova York, onde logo se associou à vanguarda artística da metrópole cultural norte-americana. Em 1973, retornou às origens, e hoje é considerada uma das mais importantes artistas contemporâneas de seu país.

A riqueza da obra de Kusama pode ser mensurada por sua larga produtividade, pelo uso de múltiplas técnicas e registros das artes visuais - pintura, gravura, escultura, fotografia, performance, instalação -, e pela recorrência profunda de elementos gráficos e decorativos, sobretudo bolas, pontos, flores, linhas, redes, tentáculos. Numa densa análise combinatória, Yayoi Kusama mesclou exaustivamente seu repertório gráfico a diferentes formas de expressão artística, resultando numa obra poderosa e contundente. 

Em 2012, o Whitney Museum of American Art fez uma retrospectiva atualizada da obra de Yayoi Kusama. E a Louis Vuitton, sob o comando de Marc Jacobs, inspirou-se na artista para sua mais recente coleção lançada em setembro do ano passado em Paris. Curiosamente, Kusama chegou a ter sua própria marca, nos anos 60, quando morava em Nova York - a Kusama Fashion Company -, que vendia tecidos e vestidos, todos em estampas de pois e bolinhas.

Esse ano, será a nossa vez de conhecermos de perto a infinita obsessão de Yayoi Kusama. O Centro Cultural Banco do Brasil já anunciou. 

Abaixo, uma amostra de quão variada e extensa foi - e continua sendo - a produção artística de Yayoi Kusama:

"Auto-Obliteração", de 1966, fotocolagem em papel (da série "obsessão por redes").
"Céu e Terra", 1991.
Performance de 1969, no Central Park.
Kusama posa com suas mais recentes pinturas, em 2011, em Tóquio.
A artista fotografada em 2011.
Kusama em "Obessessão por Bolas", 2011.
"Um Encontro com uma Estação em Flor", acrílico sobre tela de 2009.
Yayoi em ação.
"Eu Quero Viver Honestamente, Como o Olho no Quadro", de 2009, acrílico sobre tela.
"Homem Pegando o Inseto", 1972, colagem e óleo sobre papel.
"Peixe", 1953, tinta, aquarela e pastel sobre papel.
Yayoi em "Árvore Amarela", mobiliário para a trienal de Nagoya em 2010.
"Acumulação", 1963, escultura-instalação.

sábado, 22 de dezembro de 2012

A lei do mínimo esforço...

Durante a semana de moda de Paris, em setembro-outubro desse ano, o diretor do museu Galliera, Olivier Saillard - museu parisiense dedicado à história da moda - e a atriz inglesa, Tilda Swinton, apresentaram uma performance no Palais de Tokyo, principal centro de arte contemporânea da cidade, denominada "The Impossible Wardrobe" ("O Guarda-Roupa Impossível").

Durante 40 minutos, num cenário concebido como um show-room glamuroso, com um grande espelho antigo posicionado ao final de uma passarela, Saillard repassava a Tilda peças de vestuário do acervo do museu - jaquetas militares da era napoleônica, vestidos autênticos desenhados por Balenciaga, Chanel, Elsa Schiaparelli, além de inúmeros acessórios e vestimentas originais dos séculos XIX e XX.

Tilda usava apenas um vestido branco, como um avental, passando a ideia de uma tela em branco. Quando recebia as roupas ou acessórios de Saillard, ela os cheirava, segurava-os com um misto de reverência e desejo. Mostrava cada peça ao público como se fossem sagradas, como se carregassem consigo a alma de seus donos. Vesti-as raramente.

Saillard conta que não pensou em outra pessoa para protagonizar esse projeto. Para ele, a atriz britânica personifica um ser andrógino, uma entidade renascentista etérea, uma semi-deusa. Ao mesmo tempo, ele brinca ao falar que Tilda é bege, nude, uma moldura vintage para o tal guarda-roupa impossível.

Pessoalmente, tenho enorme admiração pelo trabalho de Swinton. Uma atriz ousada, de personalidade, que assume seus personagens sem passar a ideia de esforço para personificá-los, como se atuar fosse um vestido de caimento perfeito, alta-costura.

Simplesmente se "é" Tilda Swinton. Ponto.