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quarta-feira, 19 de junho de 2013

contra a interpretação...

Susan Sontag por Annie Leibovitz
Sempre admirei o pensamento e a persona de Susan Sontag. Ontem, em busca de uma leitura de acervo como contraponto a essa enxurrada de informações online, reli seu ensaio "Contra a Interpretação", um dos seus primeiros a respeito de estética e filosofia da arte. Datado de 1964, e com fortes referências no ideário de Walter Benjamin, o ensaio de Sontag traça um breve histórico de como caminhamos, no ramo da estética ocidental, para pensarmos a arte de forma preponderantemente racional, privilegiando o conteúdo em detrimento da forma, privilegiando a interpretação a posteriori, como se a materialidade da arte, seu suporte físico, fosse algo menor por ser aparente, efêmero, frágil. Como o corpo em relação à alma. O que não se dá a ver aos olhos, isso sim seria o filé mignon, o transcendente, o elemento sacro do objeto artístico. 

Sontag cita Oscar Wilde como introdução: "somente as pessoas superficiais não julgam pela aparência. O mistério do mundo está no visível, não no invisível". Para encerrar o texto, ela faz o seguinte chamamento: "em vez de uma hermenêutica, precisamos de uma erótica da arte" (por hermenêutica, de modo geral, entenda-se o ramo da filosofia que estuda a teoria da interpretação).

Ou seja, em vez de seguirmos interpretando, impondo e contrapondo nossas opiniões, que tal abrirmo-nos a uma educação dos sentidos, a uma relação sensorial e afetiva com a arte? Afinal, ela só existe como tal na medida em que toma uma forma. Ela pode até querer se relacionar com um invisível, com o espiritual, mas não vai escapar de uma representação material. E para apurar o olhar para a experiência artística é preciso tempo, atenção, contemplação, um deixar se levar pela divagação. É preciso não querer nada daquela obra, daquela matéria. É preciso ser pacientemente desinteressado. Para permitir que um certo desejo nasça desse encontro. Um encontro sem pré-julgamentos e opiniões conformadas. Um encontro ordinário, carnal, um encontro precário, uma trepada rápida num banheiro público ou uma foda homérica num hotel 5 estrelas. Um encontro arriscado, perigoso e, por isso, erótico.

Paixão, perigo, disponibilidade, distração, desinteresse, paciência, os ingredientes fundamentais da receita libertária de Walter Benjamin para diferenciar uma vivência banal de uma experiência de vida. Sontag retoma essa vertente, afilia-se a ela, ao questionar por que a necessidade de tantas explicações, de tanta interpretação, de tanta opinião formada sobre tudo. Eu tenho minha hipótese: crescemos a valorizar as garantias, segurança e estabilidade. Pagamos um preço. Onde cabe o desejo nessa ordem de valores? Muito pouco espaço para qualquer erótica... 

domingo, 16 de junho de 2013

imagens, apesar de tudo...

Cinegrafista sendo atacado por PM no centro de São Paulo, durante a manifestação a favor do passe livre na última quinta-feira.
Leio hoje no caderno "Aliás" do Estadão que a Abraji - Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo - contabilizou em 15 os jornalistas feridos pela PM no ato a favor da redução das tarifas de transporte público na última quinta-feira, dia 13 de junho, em São Paulo. Bombas de gás e balas de borracha foram os principais instrumentos utilizados pela polícia militar para reprimir os manifestos paulistanos, além de spray de pimenta e os usuais cacetetes. Ferido no olho, um fotógrafo da agência Futura Press corre o risco de ficar cego.

Para o governo e sua polícia, repórteres são alvos privilegiados em casos como esse. Afinal, é por meio de suas imagens e relatos que podemos tomar conhecimento de outros lados de uma história, de acontecimentos. E, de fato, vimos não apenas nas redes sociais mas também nos jornais imagens impressionantes, registros de atos de barbárie e violência ocorridos na última quinta no centro de São Paulo, na praça Roosevelt, na Rua da Consolação, nas imediações da Paulista.

Nesse contexto, quero inserir as ideias do filósofo francês e historiador da arte, Georges Didi-Huberman. Um pensamento que, a meu ver, é altamente poderoso como ferramenta crítica para pensarmos o que vemos no presente, sobre a enxurrada de imagens pelas quais passamos o olho, pelo caráter de registro que a fotografia tem e que, na maioria das vezes, negligenciamos seja como informação, seja como arte e instrumento de reflexão. Graças à técnica fotográfica e seu caráter de reprodução - conceito cunhado por Walter Benjamin para declarar a perda da aura da obra de arte em seu conceito clássico - podemos hoje carregar num pen-drive imagens contrabandeadas de uma passeata em Instambul, de um crime contra os direitos humanos no Irã, ou da situação do trabalho infantil no Paquistão. 

Da perspectiva de Didi-Huberman, em vez de representarem um ultraje à condição humana, a impossibilidade de retratar o irretratável, o inimaginável, imagens como as que foram feitas, de forma amadora inclusive, das cenas de violência cometidas pela PM paulista contra manifestantes, não só devem ser reproduzidas e repassadas ao máximo como também preservadas em seu contexto precário - e dinâmico - de registro. Somente por meio das imagens - e dos relatos - é que podemos construir um olhar crítico sobre o que acontece ao nosso redor. 

Por defender tal argumento, Huberman enfrentou duras críticas de pesquisadores como Claude Lanzmann, diretor do documentário Shoah, sobre o holocausto, para os quais não há representação possível para atrocidades como as perpetradas durante o período nazista.

É justamente contra tal tabu - o do inimaginável, do impensável - que o filósofo francês se posiciona. Para ele, o pensamento, a escrita e a arte devem resistir ao sentimento de impossibilidade. Mesmo que não alcancem dar conta de representar esse "inimaginável" em seu absurdo, em sua estupidez e desumanidade. O que não se pode é ficar refém dele, refém da alienação histórica, da amnésia política, refém da inconsciência dos fatos. Por isso, deixemos elas virem, surgirem, passarem frente a nossos olhos, as imagens. 

Inspirado não apenas em Benjamin mas no historiador da arte Aby Warbung, o pensamento e a arte de Didi-Huberman enxergam as imagens como objetos arqueológicos, como a possibilidade de associações transversais entre passado e presente, a possibilidade de encontrar pontos de convergência entre fatos e temporalidades distintas. Entre o que vemos no presente, o que sobreviveu, mais o que sabemos ter desaparecido.

Se não estamos presentes, se nos negamos a olhar, a ver, se não enfrentamos as imagens com olhos críticos - isto é, treinados e atentos - passamos pelo mundo sem entendê-lo, sem duvidar dele. Sobretudo em suas contradições mais atrozes. Por isso, as imagens, apesar de tudo... 

segunda-feira, 18 de março de 2013

as cidades invisíveis...

fotos de Kouichi Aokigi  

"Se meu livro As cidades invisíveis continua sendo para mim aquele em que penso haver dito mais coisas, será talvez porque tenha conseguido concentrar em um único símbolo todas as minhas reflexões, experiências e conjeturas", Italo Calvino, a respeito de sua obra, "As cidades invisíveis", escrito em 1972.

Walter Benjamin escreveu que a melhor maneira de se conhecer uma cidade é perder-se nela. Flanar. Walter Benjamin era barroco, gostava do tempo estendido, não só mero cronos. Por isso também era afeito a andar por aí sem rumo, sem mapa, conhecendo a topografia de uma cidade pelo contato direto, pelo estranhamento, pelo erro.

Italo Calvino, em seu "As cidades invisíveis", foi por um caminho distinto, até oposto, de certa forma. Foi conciso, preciso, fazendo do personagem histórico, Marco Polo, o viajante veneziano, sua Sherazade a contar para o imperador Kublai Khan as maravilhas das cidades que formavam seu imenso império, as quais, porém, ele não podia conhecer pessoalmente por conta de seus encargos de chefe supremo. Cego das belezas contidas em seus domínios, era por meio dos olhos de Marco Polo que Khan tinha acesso imaginário aos cantos e encantos de 55 cidades pelas quais o estrangeiro, seu diplomata, teria passado e conhecido. Todas eram referidas por nomes de mulheres: Cecília, Leônia, Pentesileia - e cada uma delas agrupadas em sub-títulos: as cidades e as trocas, as cidades e o céu, as cidades e os mortos, as cidades delgadas, as cidades e as memórias.

Quando penso numa cidade que não conheço, e ouço o relatos de alguém a respeito, faço logo essa associação com a obra de Calvino. Como se um espaço que não existisse fosse sendo ocupado por uma geografia específica, uma arquitetura, prédios, casas, ruas. Como jogar tinta sobre um "ser invisível". Ele deixa de passar despercebido e adquire formas, graças à intervenção de algum action painter imaginário. No caso das cidades nunca visitadas por Kublai Khan, as formas se configuram por meio das palavras, dos relatos de Marco Polo. Metáforas, referências, analogias, associações são maneiras múltiplas de dar a conhecer essas cidades a quem nunca poderá flanar por elas. Mas que, por outro lado, as conhecerá de maneira única, mágica, pela invenção do olhar daquele que a viu e a experimentou subjetivamente. É um olhar único e múltiplo, ao mesmo tempo. Cada cidade como representação de um universo inteiro.