Eis o plot de "Tese sobre um homicídio" (2013), filme argentino ainda em cartaz em São Paulo, dirigido por Hermán Goldfrid:
O professor de direito penal Roberto Bermudez está no ápice da carreira. Seu seminário/curso na Faculdade de Direito de Buenos Aires é disputadíssimo pelos alunos, os quais nutrem por ele profunda admiração. Um certo temor até. O que reforça em Bermudez o sentimento de arrogância, um pairar superior aos demais, sejam alunos, amigos ou colegas de profissão. Até que surge Gonzalo, jovem advogado de 28 anos, filho de amigos de longa data do causídico. Também inscrito no curso de direito penal de Bermudez, Gonzalo deseja impressionar o mestre, revelar sua admiração por ele por meio do conhecimento, o que vai funcionar como brasa sobre combustível - Bermudez sente-se imediatamente ameaçado por aquele jovem, em todos os sentidos, literalmente.
O catalisador dessa rivalidade é o assassinato de uma jovem, cujo corpo aparece estendido no estacionamento da faculdade interrompendo uma aula do mestre Bermudez. Na noite anterior, no lançamento de seu livro "A Estrutra da Justiça", o autor Bermudez e seu pupilo Gonzalo haviam discorrido sobre posições divergentes em relação à aplicação da lei, justiça e impunidade. Na noite seguinte, por conta do cadáver caído bem abaixo dos olhos de todos, o que parecia um embate pueril entre admirador e admirado transforma-se em ameaça, em conflito aberto entre dois rivais, o mais novo tentando tirar o poder do mais velho. Sentindo-se acuado, com o ego prestes a se esboroar, Bermudez revida ao encasquetar que o responsável pelo homicídio é ninguém menos do que seu pupilo e admirador Gonzalo. E para provar sua suspeita, transformada em sua cabeça em certeza, ele será capaz de entender e interpretar a realidade dos fatos da forma que lhe for mais conveniente.
Ricardo Darín concede uma potência emocionante ao professor Roberto Bermudez. Ele sua a camisa ao longo dos 106 minutos de duração do filme. Pois o que vemos na tela é a transformação de um homem cheio de si, soberbo e inatacável, que vê sua blindagem egoica derreter. Por trás dela, surge um indivíduo solitário, com os instrumentos de afeto atrofiados, vista a energia psíquica drenada para manter um pedestal que vai se mostrando feito de barro. A alteridade inexiste para a personagem; quando aquela se mostra, é recebida como ameaça, e por isso a reação de ataque. É preciso atacar sem trégua porque qualquer reconhecimento do Outro, da diferença, é uma percepção do próprio desaparecimento, do fim da linha.
Embora possa ser considerado um longa mainstream, se comparado a filmes realizados por Lucia Puenzo, Lucrecia Martel e Pablo Trapero, "Tese sobre um Homicídio" não é apenas um thriller policial e, de quebra, psicológico. É um filme que, mesmo dentro de uma certa perfeição estética (sim, em termos de planos, de jogos de câmera, de fotografia, o filme é impecável) fala, para várias camadas de recepção, de questões metafísicas/filosóficas complexas, como verdade, justiça, culpa, onde vale menos a trama criminal do que o delírio do protagonista resultante do medo do poder social destituído, de uma imagem degradada.
Em certa medida, há um paralelismo de "Tese..." e o dinamarquês "A Caça" (pra mim, ambos já na lista top 10 ou mesmo 5 de melhores filmes do ano). Se um sujeito - social que seja, uma comunidade, por exemplo, como no caso de "A Caça" - não dá conta de enfrentar seus próprios medos, o próprio inferno, sobra oferecer algum outro em sacrifício. No mínimo, a sensação é a de que pode haver controle sobre as coisas.
A gente se engana tanto, e com tanta eficiência...
Mostrando postagens com marcador filmes. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador filmes. Mostrar todas as postagens
quinta-feira, 5 de setembro de 2013
como o inferno são os outros...
Marcadores:
admiração,
alteridade,
audiovisual,
cinema,
cinema argentino,
culpa,
filmes,
films,
hermán goldfrid,
justiça,
leis,
movies,
ricardo darín,
rivalidade,
tese sobre um homicídio
sexta-feira, 30 de agosto de 2013
o crime compensa...
![]() |
| Da esquerda para a direita, Taissa Farmiga (Sam), Israel Broussard (Marc), Emma Watson (Nikki), Katie Chang (Rebecca) e Claire Julien (Chloe). |
Coppola, ela mesma uma celebridade, pela genealogia, pelas afinidades com o mundo da moda e a cultura pop-indie, tem apreço pela temática. Depois de uma atuação duramente criticada como a filha de Don Corleone em "O Poderoso Chefão 3" (1990), último filme da trilogia dirigida por seu pai, Francis Ford Coppola, Sofia passou a colocar o cinema de lado, e abraçou a moda. Virou designer de sapatos, fez amigos por lá, como Marc Jacobs, com quem trabalhou, e, inevitavelmente, suas conexões afetivas permaneceram num mundo já familiar - os cultivados, cults e bacaninhas.
Até voltar ao cinema pelo lado de trás das câmeras, como roteirista e diretora. "As Virgens Suicidas" (1999) é sua estreia em longas-metragens, estrelado por Kirsten Dunst, uma das suas atrizes-amigas, com quem também roda "Maria Antonieta" (2006). Coppola carrega para seus filmes toda a bagagem da cultura pop high-class na qual sempre esteve mergulhada, a moda, a preocupação com uma trilha sonora de efeito, personagens "iguais a ela", equipe técnica de amigos, e um certo vazio existencial a mover seus personagens, ora em busca de um sentido novo, ora em busca de um certo escapismo, uma alienação desejada.
"Bling Ring" é radical nesse último sentido, o da alienação e do escapismo. Seguindo rente à reportagem da Vanity Fair sobre a gangue de Hollywood, Coppola opta por um retrato da história pela perspectiva da ficção jornalística. Há até uma certa "desglamourização" dos personagens e, consequentemente, da narrativa. Com exceção de Marc (Israel Broussard), o único homem - apesar da indefinição sexual - e o menos inconsciente do grupo, as demais garotas encontram-se atoladas até o último fio de cabelo alisado na lama da frivolidade.
Não há sequer um frio na barriga, provavelmente o medo de serem pegos pela polícia, ao entrarem sem serem convidados nas casas de famosos de onde furtavam jóias, relógios, sapatos, vestidos, jaquetas, tudo chanel, bulgari, balenciaga, rolex, lv, balmain, rick owens, herme's e afins. Ao mesmo tempo em que os donos de todos esses objetos fetichizados pela gangue - e por todos nós, em alguma medida ou grau -, são considerados ícones pelo grupo, há uma dose de inveja que justifica suas ações: eles têm tanto, e de tudo, que não irão dar por falta; já nós, não; nós precisamos ser legitimados como personalidades "A-list" seja na escola ou na balada. E, para tanto, nada de medir esforços para ostentar uma enxurrada de marcas.
Num dado momento do filme, Marc, ao ser entrevistado pela repórter da Vanity Fair, compara a gangue a Bonne e Clyde, o casal de foras-da-lei que aterrorizou o Texas no período da Grande Depressão americana (anos 30), e que morreu numa emboscada policial depois de conquistarem as manchetes dos jornais da época. Símbolos da luta desesperada pela fama - Bonnie sonhava ser estrela da Broadway, enquanto Clyde, temido como grande homem do crime -, o personagem de Marc afirma à jornalista que a América parece nutrir um fascínio por esses tipos. Há, porém, uma diferença considerável entre o duo texano e a gangue do deslumbre: o primeiro, numa época de vacas magras, falta de perspectivas, e sonhos a serem alcançados, vivem perigosamente como forma de se libertar, a qualquer preço, de uma situação de mesmice (havia uma consciência dos dois, num dado momento, de que não haveria volta nem perdão); já a gangue das grifes não possui essa rebeldia, nem mesmo a adrenalina; há uma banalidade tão grande em seus delitos, na forma em que os encaram, que, mesmo com todo o risco iminente de serem colocados atrás das grades, uma das meninas só consegue dizer, eu preciso de uma bolsa chanel nova pra hoje. Bora então pegar uma na casa de Paris...
Marcadores:
bonnie and clyde,
celebridades,
cinema,
emma watson,
filmes,
foras da lei,
francis ford coppola,
grifes,
hollywwod,
israel broussard,
kirsten dunst,
marcas,
movies,
sofia coppola,
the bling ring,
vanity fair
segunda-feira, 19 de agosto de 2013
gente como a gente...
Estreia na próxima sexta, dia 23/08, a comédia indie que conquistou o verão norte-americano e europeu neste ano. "Frances Ha" é dirigido por Noah Baumbach, o mesmo de "A Lula e a Baleia", e contou com a participação da atriz Greta Gerwig - também protagonista do filme -, no desenvolvimento do roteiro.
Comédia indie e hit do verão no hemisfério norte soam a cafonices. Mais clichê ainda é a breve descrição geral da trama do filme: uma garota classe-média, nos seus vinte e tantos anos, já graduada, tentando se encontrar profissionalmente, sem casa ou outros objetivos de vida definidos, vagando por uma Nova York de atmosfera à la Woody Allen, onde as personagens retratadas são cools, bem-sucedidas ou meros dandies a curtir a vida cosmopolita da cidade. Pois foi por tanto desdenhar desse plot que cai do cavalo quando assisti à pré-estreia do filme, na segunda passada.
"Frances Ha" retira sua força da autenticidade da interpretação de Greta Gerwig. De um naturalismo quase clown, ingênuo, mas altamente espontâneo e, por isso, com enorme potencial de capturar a simpatia do público. Há muito tempo não me recordava tão vivamente da premissa a fundar o cinema clássico: nada além de um pacto fictício de verossimilhança entre o espectador e a narrativa. Sabemos que é tudo mentira, mas acreditamos no que vemos, entramos na história e nos identificamos ali. "Frances Ha" refrescou-me a memória, reavivou um dos fundamentos do story-telling cinematográfico.
A questão, então, não é sobre originalidade num sentido estrito. Já vimos outras histórias de desajustados, de personagens existencialmente perdidos entre o fim de uma etapa da vida e a tomada de consciência de uma nova rota a seguir. O que diferencia o filme de Noah Baumbach é a junção muito bem-sucedida entre os diálogos, extremamente sofisticados em suas variações de tom e humor, a interpretação de Greta, a fotografia em preto e branco, proposital para criar um quê atemporal, cult e ao mesmo tempo banal, ao redor das personagens. Gente como a gente, gente que somos ou conhecemos. As expectativas desequilibradas nas relações, as falhas de comunicação, as incompreensões mútuas, as inseguranças, o orgulho. Falar demais, inventar histórias, não dar o braço a torcer. Se ainda soa clichê, pensem que a Frances de Greta Gerwig consegue passar todo esses seus desajustes comuns a todos nós de uma maneira diferenciada, própria. Com bom-humor e generosidade tão genuínos que saímos do cinema nos sentindo especiais, únicos. Como essa louca correndo por Manhattan ao som de "Modern Love" do Bowie. Se eu fosse você, iria conferir...
Marcadores:
a lula e a baleia,
artes,
audiovisual,
branco e preto,
cinema,
comédia,
david bowie,
filmes,
films,
frances ha,
greta gerwig,
hipster,
indie movies,
interpretação,
movies,
new york,
noah baumbach
sábado, 17 de agosto de 2013
ator bom mente...
A personagem mais famosa de Norma Jean chamava-se Marilyn Monroe. Uma mulher que se tornou rapidamente estrela de Hollywood sem saber se por conta de sua beleza e sensualidade ou por seu real talento como atriz. Norma Jean/Marilyn sofria com essa dualidade. Era algo que a desequilibrava internamente, embora fosse a fonte de seu carisma e charme com intérprete.
"Sete Dias Com Marilyn" (2011), co-produção anglo-americana, narra um acontecimento real na carreira da atriz. Em 1956, ela viaja a Londres para filmar com o ator britânico Sir Laurence Olivier a película "O Príncipe Encantado". Marilyn vai acompanhada de seu recente marido, o dramaturgo Arthur Miller, e, àquela época, já era um ícone popular. Ao contrário de Olivier, um ator shaskesperiano respeitado no meio erudito. Obviamente que o encontro entre os dois acaba por gerar um enorme conflito - o ator vaidoso e cheio de si, orgulhoso de sua formação apurada, e o símbolo sexual, instintivo e frágil, indomável em seu carisma e sexualidade. Olivier desqualifica Marilyn porque ela é bonita, insegura, autêntica e - sobretudo - talentosa de uma maneira distinta da sua. Um outro cultivo, um outro tipo de vocação (curioso que, após as filmagens, Olivier retorna aos palcos revigorado, em uma peça de grande repercussão de crítica, enquanto Marilyn filma "Quanto Mais Quente Melhor", de Billy Wilder, considerado por muitos o ponto alto de sua carreira; apesar da hostilidade e estranhamento, ambos conseguem tirar proveito das 4 semanas de convívio turbulento).
O filme de Simon Curtis, porém, centra-se no depoimento do então jovem Colin, terceiro assistente de direção dos estúdios Pinewood que, no final de sua vida, conta em livro a experiência de convívio próximo com Norma Jean e Marilyn quando das filmagens de "O Príncipe Encantado". Porque Colin conhece as duas - a estrela e a mulher que a interpreta. Aquela que nunca soube quem era seu pai, que não pôde ser criada pela mãe, que sofria intensamente com a projeção causada por sua beleza, com a imagem de fêmea fatal e, ao mesmo tempo, de loira burra pela qual era rotulada. Adoração e rejeição sentidos intensamente, sem que ela soubesse diferenciar os lugares desses afetos (pois como diz a lei da física, dois corpos - dois sentimentos/afetos - não podem ocupar o mesmo lugar no espaço).
"Sete Dias com Marilyn" chega a ser repetitivo no que se refere à lente aumentada que coloca sobre a atriz-fetiche - talvez a de aura mais poderosa entre as estrelas de cinema. Só que esse aparente defeito oferece o espaço e o tempo necessários para que Michelle Williams nos dê uma Marilyn multi-facetada, porém sempre numa chave mais grave, abaixo do que poderíamos imaginar. Sabemos que é uma interpretação de Marilyn, embora não vejamos Michelle naquele corpo, naquele personagem. Aí, nesse equilíbrio tênue e delicado, entre a fantasia e a realidade, é que, como espectadores, podemos conhecer as cores possíveis de Norma Jean/Marilyn. Não as reais ou verdadeiras, as verossímeis e críveis, essas sim. Sem necessidade de caricatura, excessos, sem bancar a pomba-gira possuída pelo mito.
(Não à toa apresento aqui minha descrença na técnica de preparação de atores ou não-atores exaustivamente empregada no cinema brasileiro, por meio da qual tenta-se apagar a identidade do ator/atriz e suas experiências para que ele vista a pele de uma personagem real e, assim, torne-a mais verdadeira. O que vemos, como resultado, são "platitudes", banalidades. Atuar é uma mentira sem tamanho, assim tenho cá pra mim).
("Namorados para Sempre" e "Entre o Amor e a Paixão" já tinham confirmado, pra mim, o talento da atriz Michelle Williams; "Sete Dias com Marilyn" deixaram-me, agora, encantado com sua figura).
"Sete Dias Com Marilyn" (2011), co-produção anglo-americana, narra um acontecimento real na carreira da atriz. Em 1956, ela viaja a Londres para filmar com o ator britânico Sir Laurence Olivier a película "O Príncipe Encantado". Marilyn vai acompanhada de seu recente marido, o dramaturgo Arthur Miller, e, àquela época, já era um ícone popular. Ao contrário de Olivier, um ator shaskesperiano respeitado no meio erudito. Obviamente que o encontro entre os dois acaba por gerar um enorme conflito - o ator vaidoso e cheio de si, orgulhoso de sua formação apurada, e o símbolo sexual, instintivo e frágil, indomável em seu carisma e sexualidade. Olivier desqualifica Marilyn porque ela é bonita, insegura, autêntica e - sobretudo - talentosa de uma maneira distinta da sua. Um outro cultivo, um outro tipo de vocação (curioso que, após as filmagens, Olivier retorna aos palcos revigorado, em uma peça de grande repercussão de crítica, enquanto Marilyn filma "Quanto Mais Quente Melhor", de Billy Wilder, considerado por muitos o ponto alto de sua carreira; apesar da hostilidade e estranhamento, ambos conseguem tirar proveito das 4 semanas de convívio turbulento).
O filme de Simon Curtis, porém, centra-se no depoimento do então jovem Colin, terceiro assistente de direção dos estúdios Pinewood que, no final de sua vida, conta em livro a experiência de convívio próximo com Norma Jean e Marilyn quando das filmagens de "O Príncipe Encantado". Porque Colin conhece as duas - a estrela e a mulher que a interpreta. Aquela que nunca soube quem era seu pai, que não pôde ser criada pela mãe, que sofria intensamente com a projeção causada por sua beleza, com a imagem de fêmea fatal e, ao mesmo tempo, de loira burra pela qual era rotulada. Adoração e rejeição sentidos intensamente, sem que ela soubesse diferenciar os lugares desses afetos (pois como diz a lei da física, dois corpos - dois sentimentos/afetos - não podem ocupar o mesmo lugar no espaço).
"Sete Dias com Marilyn" chega a ser repetitivo no que se refere à lente aumentada que coloca sobre a atriz-fetiche - talvez a de aura mais poderosa entre as estrelas de cinema. Só que esse aparente defeito oferece o espaço e o tempo necessários para que Michelle Williams nos dê uma Marilyn multi-facetada, porém sempre numa chave mais grave, abaixo do que poderíamos imaginar. Sabemos que é uma interpretação de Marilyn, embora não vejamos Michelle naquele corpo, naquele personagem. Aí, nesse equilíbrio tênue e delicado, entre a fantasia e a realidade, é que, como espectadores, podemos conhecer as cores possíveis de Norma Jean/Marilyn. Não as reais ou verdadeiras, as verossímeis e críveis, essas sim. Sem necessidade de caricatura, excessos, sem bancar a pomba-gira possuída pelo mito.
(Não à toa apresento aqui minha descrença na técnica de preparação de atores ou não-atores exaustivamente empregada no cinema brasileiro, por meio da qual tenta-se apagar a identidade do ator/atriz e suas experiências para que ele vista a pele de uma personagem real e, assim, torne-a mais verdadeira. O que vemos, como resultado, são "platitudes", banalidades. Atuar é uma mentira sem tamanho, assim tenho cá pra mim).
("Namorados para Sempre" e "Entre o Amor e a Paixão" já tinham confirmado, pra mim, o talento da atriz Michelle Williams; "Sete Dias com Marilyn" deixaram-me, agora, encantado com sua figura).
Marcadores:
arte,
artes visuais,
arthur miller,
atriz,
audiovisual,
bbc,
cinema,
filmes,
films,
interpretação,
laurence olivier,
marilyn monroe,
michelle williams,
movies,
musa,
sete dias com marilyn,
simon curtis
sábado, 27 de julho de 2013
howard hawks, seu renascentista...
![]() |
| Cary Grant e Katherine Hepburn em "Levada da Breca" (1938) |
![]() |
| Cary Grant e Jean Arthur em "Paraíso Infernal" (1939) |
![]() |
| Cary Grant e Rosalind Russell em "Jejum de Amor" (1940) |
![]() |
| Humphrey Bogart e Lauren Bacall em "Uma Aventura na Martinica" (1944) |
![]() |
| Com roteiro de William Faulkner, Hawks filmou mais uma vez o casal Bogart e Bacall em "À Beira do Abismo" (1946). |
![]() |
| "Os Homens Preferem as Loiras" (1953): Marilyn Monroe e Jane Russell. |
![]() |
| John Wayne em "Onde Começa o Inferno" (1959) |
![]() |
| Hatari! (1962) |
![]() |
| Hawks instruindo Angie Dickinson nas filmagens de "Rio Bravo - Onde Começa o Inferno" (1959), no catálogo da mostra Howard Hawks integral, até 31 de julho no CCSP. |
Em tempo 2: Os mestres do Renascimento Italiano estão no CCBB-SP até 23 de setembro (ainda comentarei sobre a expo), e a mostra "Howard Hawks Integral", no CCSP até 31 de julho.
Marcadores:
arte,
audiovisual,
autor,
autores,
aventura,
cary grant,
ccsp,
cinema,
cinema norte-americano,
filmes,
hollywood,
howard hawks,
mestres,
mostra,
movies,
obra prima,
renascimento,
screwball comedy,
westen
quarta-feira, 24 de julho de 2013
tá na estrada, então segue...
![]() |
| A programação da mostra Brasil tela Para Todos - Perspectivas Contemporâneas nesse próximo domingo, dia 28, no CCBB-SP começa com "Central do Brasil", às 14hs, "Uma Longa Viagem", às 16h30, e "Além da Estrada", às 18h30. |
O "Brasil Tela Para Todos" nasceu de uma vontade do CCBB de São Paulo de dar espaço para o cinema nacional em sua programação audiovisual. O nome tem um quê de bolsa-família, mas defendo-o. Quem tem condições de ir a um cinema hoje em dia? Digo, pagar uma entrada cheia, sem carteirinha de estudante falsificada, mais o estacionamento ou a condução (isso sem contar a pipoca e o "refri")? E em quantas salas de exibição vemos filmes brasileiros? E quais filmes? É um dado real que não há tela para todos. Por isso a vocação da mostra: aproximar o grande público das produções nacionais contemporâneas, mais recentes, a cada mês subdivididas em temas ou gêneros. E como o objetivo é formação de público, temos de sucessos de bilheteria e crítica até filmes menores, que não conseguiram visibilidade suficiente para serem conhecidos. Filmes feitos por jovens realizadores, filmes que tiveram alguma repercussão internacional, filmes que tratam de diferentes aspectos do Brasil e de sua história.
Para o mês de julho, escolhemos o gênero road-movie como tema da mostra. No próximo domingo serão exibidos "Central do Brasil" (1998), de Walter Salles; "Uma Longa Viagem"(2011), de Lucia Murat, e "Além da Estrada"(2010), de Charly Braun. De "Easy Rider" a "On the Road", passando por "Bye Bye Brasil" ou "Thelma e Louise", os filmes de estrada tornaram-se um gênero em si pelo próprio apelo metafórico que uma viagem tem. Viajar significa buscar uma experiência nova, espairecer, ir atrás de algo, recuperar esse algo e, inconscientemente, estar aberto ao inesperado e imprevisível. Uma viagem nos coloca frente ao dilema entre a dificuldade de mudarmos e o desapego oferecido pela estrada, que sempre deixa algo para trás.
Nos 3 filmes selecionados, há essa procura: por uma outra chance na vida, por um lar, pelas memórias pessoais e da história de um país, pelo frio na barriga do futuro em aberto.
Como os filmes de viagem, o "Brasil Tela Para Todos" não se pretende totalizante, absoluto, unívoco. É uma mostra com o pé na estrada mesmo, aberta para erros e acertos, para a livre recepção do público, para o diálogo com o espectador. É uma perspectiva, uma visada entre tantas, que, como num cenário de viagem, cambiará a cada mês. Seguimos adiante e ficaremos muito contentes se vocês forem subindo nessa boléia. Não tem pressa...
Marcadores:
além da estrada,
arte,
ccbb-sp,
central do brasil,
charly braun,
cinema brasileiro,
cinema contemporâneo,
convergenciacultural,
filmes,
lucia murat,
mostras,
movies,
road movies,
uma longa viagem,
walter salles
domingo, 21 de julho de 2013
nem tudo já foi dito...
Um dos ítens a serem desmitificados por Laub é o de que tudo já foi dito. Leia-se que nada mais é original. Complementa-se esse lugar-comum com um outro: todos os modos de dizer já foram utilizados.
Quem lê livros, vai ao cinema, exposições, vive o mundo real e virtual, tudo isso com certa regularidade, sabe que há uma dialética embutida na realidade em que vivemos - de alguma maneira, podemos fazer conexões com o passado, fatos históricos, ou mesmo relacionar ideias e formas a outros autores e escolas, gêneros. No entanto, há como discernir entre uma obra original, feita com suor e lágrimas, de outra preguiçosa, cópia fácil. E obviamente que há temas novos a serem abordados na medida em que o mundo avança em diferentes frentes, sejam novas linguagens a serem exploradas, novos problemas e questões, sejam novos temas até então desconhecidos, desimportantes.
Ainda na boléia do argumento de Laub, minha intenção é empregar sua desconstrução de pré-conceitos artísticos para falar da "Branca de Neve" (2012) do espanhol - e basco - Pablo Berger. Com vários elementos possivelmente contrários à originalidade e qualidade artística desse filme - vide "O Artista", de Michel Hazanavicius, releitura dos filmes mudos anteriores ao cinema falado, e as demais adaptações hollywoodianas para o conto dos Irmãos Grimm, uma com Julia Roberts e a outra com Charlize Theron, ambas como a rainha-má -, a película de Berger é fortemente original. E não quero ser meramente adjetivo aqui quando o filme é super substantivo. Berger adapta a fábula de Branca de Neve à Sevilha de 1910, tendo como pano de fundo a tauromaquia e a cultura do sul da Espanha. Cultura de grande apuro estético, de iconografia fabular riquíssima, de mistura do drama, melodrama, com a comédia, o flerte com o bizarro.
"O Artista" retrata uma época relativa ao cinema mudo, retoma esse tema. Já o filme de Berger, não. Ele é, em si, um misto de cartoon com história de horror e cinema. Mais que isso, a história de Branca de Neve é recontextualizada de uma forma em que a menina doce e sofrida se vê às voltas com as fontes mais primitivas contidas nos contos de fadas - a perda dos pais, a herança familiar que restou, a recriação da identidade, a tentativa de fuga de uma sina, um destino pré-concebido. Nesse sentido, a Branca de Neve de Berger é andrógina, farta em seus lábios e olhos grandes, cabelos curtos, toureadora, a sétima anã de um clã de pequeninos saltimbancos que vivem a perambular pelo interior da Espanha. E emprestando como referência o suspense de Hitchcock como o mistério e o absurdo de Buñuel, Berger nos presenteia com um filme que Tim Burton deveria assistir para se reciclar. O anão-príncipe e a princesa-cadáver. Vá ver...
Marcadores:
arte,
blancanieves,
branca de neve,
buñuel,
cinema,
cinema espanhol,
conto de fadas,
filme mudo,
filmes,
hitchcock,
maribel verdú,
michel laub,
movies,
pablo berger,
preto e branco,
sevilha,
tauromaquia,
tim burton
terça-feira, 16 de julho de 2013
a frieza dos dias...
![]() |
| Audrey Tautou e Romain Duris em "A Espuma dos Dias", de Michel Gondry. Virtuosismo pelo virtuosismo. |
O pior dos mundos, a meu ver, é tentar se esforçar, fazer bastante barulho, demonstrar toda uma expertise, e morrer bem antes da praia. É como vi "A Espuma dos Dias", mais recente longa do francês Michel Gondry, adaptado da obra do multifacetado Boris Vian. Soa pretensioso. Melhor baixar a bola, e ralar no roteiro, numa maneira atraente de contar a história.
Ok que Gondry seja fascinado pelo surrealismo, que ele tenha esse pendor e saiba bem como aplicá-lo. Mas até então com base em narrativas orgânicas, sem que, no resultado final da receita, algum tempero tenha se sobressaído mais que o outro, o sabor, amargado. Sempre houve uma pertinência, caso de "Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembrança", também um filme sobre uma história de amor que, embora seu caráter onírico e surreal, não perde jamais em lirismo.
O contrário ocorre com "A Espuma dos Dias". É mais direção de arte, animação, efeitos especiais do que roteiro, atuação, história. Transmite o mesmo efeito da espuma, passageiro, efêmero, porém insosso. Mesmo com um elenco de peso - Audrey Tautou, Romain Duris e o ator-humorista Gad Elmaleh -, o longa de Gondry quer ser mais surreal que o "rei" Boris Vian. Não funciona. Um filme de frieza invernal... Winter has already come for Gondry...
![]() |
| Cartaz de "Brilho Eterno de uma Mente sem Lembrança", também dirigido por Michel Gondry. Muito provavelmente o roteiro de Charlie Kaufman seja o grande diferencial desse filme, no qual o surrealismo tão apreciado por Gondry foi utilizado em doses precisas. |
Marcadores:
a espuma dos dias,
arte,
audiovisual,
audrey tautou,
boris vian,
brilho eterno de um mente sem lembrança,
cinema,
cinema francês,
filmes,
gad elmaleh,
michel gondry,
movies,
romain duris,
surrealismo
sexta-feira, 12 de julho de 2013
o espírito do tempo...
![]() |
| Ifotos da expo bauhaus.foto.filme em cartaz no Sesc Pinheiros aqui de São Paulo. |
A escola de design, fotografia, arquitetura e multi-meios fundada em 1919 por Walter Gropius em Weimar, Alemanha, de nome Bauhaus, veste o conceito de Zeitgeist feito uma luva. Sob a ideologia de uma arte total, acoplada às mudanças tecnológicas e culturais do momento histórico - a predominância da técnica, a mistura de arte e artesanato, a reprodução em massa trazida pela indústria; as novas tecnologias como a fotografia, o cinema; a funcionalidade introduzida como prioridade no design de interiores e na arquitetura -, tudo isso somado demonstra a preocupação da Bauhaus com o seu tempo, com a tentativa de promover uma utopia dentro da chegada inexorável do capitalismo industrial.
![]() |
| Logo da escola criado em 1919. |
Zeitgeist permanece, hoje, como a palavra a definir o legado da Bauhaus e a larga influência nos mais variados ramos da arte contemporânea, do design, fotografia e arquitetura. Um espírito de uma época que representou a consciência da forma, a preocupação com a concepção desde os objetos até o estilo e o modo de vida. A Bauhaus nos faz lembrar quão fundamental é o comprometimento com o nosso próprio tempo.
Marcadores:
arquitetura,
arte alemã,
arte contemporânea,
bauhaus,
berlin,
design,
dessau,
escola,
exposição,
filmes,
fotografia,
mies van der rohe,
sesc pinheiros,
videos,
walter gropius,
weimar,
zeitgeist
quarta-feira, 5 de junho de 2013
10 ou mais razões para amar David Lynch...
Realizadores cinematográficos cuja obra dialoga com outros suportes e experimentações artísticas como as artes visuais, a música, a video arte, a pintura, a literatura, são aqueles pelos quais tenho mais apreço, mais afeição. Pra citar 2: Luchino Visconti e Stanley Kubrick. Um terceiro, sem dúvida, é David Keith Lynch. Ou David Lynch, simplesmente. Lembro-me do dia em que vi "O Homem Elefante" no cinema, com meu pai. Tinha então 12 anos, e fiquei aterrorizado e, ao mesmo tempo, tocado por aquela história "baseada em fatos reais". De lá para frente, Lynch foi se tornando mais surreal, interessado pela iconografia freak norte-americana, a revisitação do film noir, dos road-movies, narrativas todas que, em menor ou maior grau, carregam elementos estranhos, de epopéia, contos de fadas, de terror, de submundo, uma linguagem particularmente onírica e atmosférica de fazer filmes.
David Lynch tem uma tal ligação com a deformidade que, penso, só um artista tão multi-disciplinar conseguiria dar o status poético que ele concede a essa categoria. Seu sucesso é transformar esse desforme em algo lírico, pertencente a um outro mundo, uma outra dimensão. Incluo também "Uma História Real" (1999) como um filme coerente dentro dessa tradição lynchiana, pois o velhinho que percorre não sei quantos mil quilômetros num cortador de grama para reencontrar seu irmão nos emociona justamente por esse caráter ilógico e realisticamente surreal de uma epopéia, um road-movie "povero", que, ao meu ver, remete a um elemento de unicidade e grandiosidade ao outcasted, outlaw, ao freak, ao marginal e montruoso. Um caráter de enorme beleza.
David Lynch lança, no dia 15 de julho, seu novo álbum chamado "The Big Dream". Nome mais apropriado, impossível. Depois de "Crazy Clown Time", de 2011, o novo LP/CD do diretor norte-americano centra-se no blues. No azul dos sonhos, a ligação é quase imediata. Com uma regravação de "Ballad of Hollis Brown", de Bob Dylan, a participação, nas guitarras, de seu filho Riley, de 21 anos, mais uma faixa bônus com a sueca Lykke Li nos vocais, em "I'm Waiting Here". Esta última seria uma das únicas razões possíveis para eu gostar ainda mais de David Lynch.
David Lynch tem uma tal ligação com a deformidade que, penso, só um artista tão multi-disciplinar conseguiria dar o status poético que ele concede a essa categoria. Seu sucesso é transformar esse desforme em algo lírico, pertencente a um outro mundo, uma outra dimensão. Incluo também "Uma História Real" (1999) como um filme coerente dentro dessa tradição lynchiana, pois o velhinho que percorre não sei quantos mil quilômetros num cortador de grama para reencontrar seu irmão nos emociona justamente por esse caráter ilógico e realisticamente surreal de uma epopéia, um road-movie "povero", que, ao meu ver, remete a um elemento de unicidade e grandiosidade ao outcasted, outlaw, ao freak, ao marginal e montruoso. Um caráter de enorme beleza.
David Lynch lança, no dia 15 de julho, seu novo álbum chamado "The Big Dream". Nome mais apropriado, impossível. Depois de "Crazy Clown Time", de 2011, o novo LP/CD do diretor norte-americano centra-se no blues. No azul dos sonhos, a ligação é quase imediata. Com uma regravação de "Ballad of Hollis Brown", de Bob Dylan, a participação, nas guitarras, de seu filho Riley, de 21 anos, mais uma faixa bônus com a sueca Lykke Li nos vocais, em "I'm Waiting Here". Esta última seria uma das únicas razões possíveis para eu gostar ainda mais de David Lynch.
Marcadores:
album,
american director,
artes visuais,
blues,
bob dylan,
cinema,
david lynch,
direção de arte,
filmes,
films,
lykke li,
movies,
música,
o homem elefante,
songs,
the big dream,
uma história real
segunda-feira, 27 de maio de 2013
cinema e política...
![]() |
| A Palma de Ouro de Melhor Filme foi concedida ao diretor Abdellatife Kerchiche e também às atrizes Léa Seydoux e Adele Exarchopoulos, por "A Vida de Adele", adaptação livre da HQ "Blue is the Warmest Colour". |
Os vencedores - isso mesmo, no plural - foram o diretor tunisiano radicado francês Abdellatife Kerchiche mais as duas atrizes protagonistas de seu filme, Adele Exarchopoulos e Léa Seydoux. Baseado na história em quadrinhos de nome "Blue is the Warmest Colour", "La Vie D'Adele" é um filme de quase 3 horas, sobre os ritos de passagem de duas garotas de meios distintos, em Lille, norte da França - Adele, da classe média-baixa - e Emma - de um ambiente rico e intelectualizado. Ambas têm vocações muito fortes - ensinar (Adele) e pintar (Emma). Ambas descobrem a sexualidade e o amor juntas, numa história que, de acordo com os críticos e jornalistas que cobriram o festival, não tira sua força da originalidade do tema, mas sim da forma intimista e realista pela qual ela é abordada. Aqui, a atuação das duas atrizes foi considerada fundamental, assim como o naturalismo do olhar de Kerchiche (em 2007, o mesmo diretor foi premiado com o Leão de Ouro em Veneza por "O Segredo do Grão").
Claramente havia filmes com chances semelhantes a "A Vida de Adele" de levar a "Palma de Ouro". Pouco importa; alguém tem que sair ganhando nesses casos. E, pelo que li, não se perpetrou nenhuma injustiça. O que mais me chamou a atenção foi o julgamento que muitos jornalistas, sobretudo europeus, fizeram de Steven Spielberg como presidente do júri da edição do festival nesse ano. Como se fosse um diretor norte-americano "bitolado", de uma única vertente, realizador de blockbusters de grande sucesso de bilheteria. Sempre bom lembrar que Spielberg faz parte da primeira geração de cineastas e produtores de Hollywood formados em cinema, na década de 70 - assim como ele, Martin Scorsese e Francis Ford Coppola. Num momento em que Hollywood precisava de sangue novo e histórias com temas até então já esquecidos ou negligenciadas pela indústria. Aquela geração foi a responsável por introduzir sexo, drogas, política, terror, e rock'n'roll ao cinema mainstream norte-americano.
E tem outra: Spielberg sabe a diferença entre o Oscar e Cannes. Assim como sabe que um filme, mesmo tendo o seu nicho de público, deve apresentar critérios mínimos de coerência interna de narrativa, fotografia, atuação. Ele é um profissional do cinema tanto quanto Kerchiche o é. Sobe ainda mais no meu conceito por ter contribuído para a escolha de um filme que fala de amor, de vocação profissional, de sexo, da condição homossexual e da condição feminina, sem que nada disso seja tratado em separado como bandeira política. Pois se a arte - mesmo que seja a indústria cinematográfica - não se mesclar à política sem abandonar a poética, não ousar junção de forma e conteúdo, não provocar alguma reação no público, então pra quê?
(em tempo: numa entrevista dada ao "the upcoming", Kerchiche, questionado pelas longas cenas de sexo explícito do casal protagonista, responde: "não há revolução completa se não há revolução sexual"...).
![]() |
| O júri do Festival de Cannes 2013, presidido por Steven Spileberg. |
![]() |
| E, aleatoriamente, uma atriz e diretora do coração - do meu - Asia Argento, que entregou o prêmio de melhor roteiro. |
sexta-feira, 24 de maio de 2013
pobre diabo...
![]() |
| "Reality" (2012), de Matteo Garrone, valeu ao diretor italiano, pela segunda vez, o Grande Prêmio do Júri do Festival de Cinema de Cannes. O primeiro Grande Prêmio foi concedido a "Gomorra" (2008). |
No meu hábito recorrente de associações ininterruptas, ao terminar de assistir a "Reality" (2012), mais recente trabalho do diretor italiano Matteo Garrone, o mesmo de "Gomorra" (2008), logo me vem à cabeça um personagem de Dostoiévski, daqueles tragicômicos, que entram numa jornada íntima de loucura apática, de alienação e recusa às desilusões. Assim enxerguei a trajetória do ingênuo e simples Luciano, um peixeiro que vive com sua grande família em Nápoles, daquelas caricatas mesmo, com direito a avós, tios, tias, sobrinhas, filhos, vizinhos, todos sempre juntos, falando alto, discutindo, metendo-se um na vida do outro.
Junto com a mulher, Luciano também tira um troco a mais para o sustento da família por meio de pequenos golpes com mercadoria contrabandeada. Tudo bem, afinal estamos em Nápoles. E tudo bem até aqui, pois, nesse caos aparente, Luciano encontra a segurança necessária para levar a vida.
Até que, numa festa de casamento, ele conhece Enzo, um ex-Big Brother (Grande Fratello, na versão italiana) que sobrevive de ser celebridade de quinta categoria a esquentar eventos "meia-boca". Estamos no início do filme, numa cerimônia de casamento mais próxima de um misto de Família Adams com Rock Horror Show. Luciano está, ele próprio, trajado de drag queen, e encanta-se com atenção que a fama de instant-celebrity proporciona a Enzo. "Never give up", "nunca desista", Enzo repete ad nauseum percorrendo o grande salão de festas, seguido por um Luciano hipnotizado. Daí a ser incentivado por toda a família a se inscrever na próxima edição do "Grande Fratello" é um pulo. Assim como de súbito, depois da primeira entrevista nos estúdios da CINECITTÀ em Roma, Luciano decide vender sua banca de peixes e apostar todas as fichas na perspectiva de "entrar na casa".
Volto com Dostoiévski: o ritmo da construção do personagem de Luciano, a guinada em sua vida que o sonho e a expectativa de participação no reality show trazem, a agilidade das sequências inciais, compatíveis com a euforia do protagonista, combinadas à posterior desconstrução tragicômica desse sonho, retratada em sequências mais estendidas, remetem-me ao estilo e aos personagens do escritor russo. Embalado pela empolgação, por uma súbita febre interpretada por Luciano como uma espécie de iluminação, um sentido verdadeiro para sua vida, o protagonista embarca num delírio sem volta.
E mais uma vez Dostoiévski, "na terra é impossível viver e não mentir, pois vida e mentira são sinônimos; mas, com o intuito de rir, aqui não vamos mentir". Garrone segue esse aforisma ao pé da letra. Antagonicamente ao violento e cru "Gomorra", o registro de "Reality" é o da comédia, da fantasia. Porém, uma comédia negra, uma fantasia decepcionada pela verdade do mundo cruel das aparências. Não se trata mais da comédia pelo riso, do sonho pelo prazer. Trata-se da comédia pelo drama, o sonho como caminho para a loucura. Pobres diabos, esses de Garrone e aqueles de Dostoiévski.
![]() |
| Luciano (Aniello Arena), já no auge de sua obsessão, fingindo estar no "confessionário" do "Grande Fratello" dentro do closet de sua casa. |
PS. A atuação de Aniello Arena, que vive Luciano, foi comparada por muitos críticos à de um jovem Robert De Niro. De fato, sua interpretação é contundente, empática com o espectador. Curiosamente, num filme que fala sobre a confusão entre vida real e ilusões, importa lembrar que Arena é um ex-pistoleiro da máfia napolitana, que cumpre prisão perpétua por um triplo homicídio no qual tomou parte em 1991 contra uma gangue rival. Saiu da cadeia apenas para filmar "Reality" - Garrone o descobriu no grupo de teatro da prisão de Nápoles quando filmava "Gomorra". Irônica coincidência com seu Luciano. Pobre diabo.
Marcadores:
aniello arena,
big brother,
cinema,
cinema italiano,
dostoiévski,
festival de cannes,
filmes,
films,
gomorra,
grande prêmio do júri,
matteo garrone,
movies,
nápoles,
reality,
reality show,
robert de niro
segunda-feira, 20 de maio de 2013
o princípio do eterno retorno...
![]() |
| Rooney Mara interpreta Emily, a esposa de Martin Taylor (Channing Tatum), ex-presidiário recém-libertado por fraude financeira. Com a libertação do marido, Emily passa a ter sérias e recorrentes crises de depressão (tentativas de suicídio, ataques de pânico). Anteriormente tratada pela Dra. Victoria Siebert (Catherine Zeta-Jones), quando da prisão do marido, ela passa a ser medicada pelo Dr. Jonathan Banks (Jude Law), um psiquiatra ambicioso à frente do lançamento no mercado de uma nova droga anti-depressiva de grande potência, mas com efeitos colaterais ainda pouco conhecidos. |
Sabe-se que Soderbergh, além de rápido, é multi-funcional no cinema: ele escreve, fotografa, monta e dirige. Sabe-se também que conduziu sua carreira entre a vertente mainstream de Hollywood e o cinema indie. Fez blockbusters e filmes-cabeça. E, nesse exato momento, quando afirma não querer mais trabalhar para a indústria cinematográfica norte-americana, quando seu "Atrás do Candelabro", também na competição oficial de Cannes neste ano - mais um ponto em comum com "Sexo, Mentiras,..." - será exibido diretamente no canal a cabo HBO no dia 26 de maio, não deixo de associar a trajetória de Soderbergh ao princípio nietzscheano do "eterno retorno". Porque a primeira impressão passada pela trajetória filmográfica de Soderbergh é a de que ele cumpriu um grande ciclo, retornando ao ponto de origem, como na metáfora da cobra que morde o rabo e fecha um círculo em si mesma. Como se houvesse uma contradição, uma espécie de polarização entre suas realizações hollywoodianas tipo "Ellen Brokovich" e a franquia "Ocean's Eleven" e filmes como "Bubble" ou "Confissões de uma Garota de Programa".
Indo mais a fundo, não só o conceito de "eterno retorno" em Nietzsche não tem tal caráter cíclico e tenso entre pólos como também a obra de Soderbergh é muito mais complementar e diversa do que irreconciliável entre suas partes. Penso que o mal-entendido se configura nos 2 casos. Eterno retorno significa multiplicidade de realidades, coexistentes, e não ciclos que vão e vem. Paralelamente, um realizador que joga em várias posições criativas e faz filmes de estilos tão diversos, com orçamentos tão díspares e para públicos tão diferentes é, a meu ver, um criador de múltiplas realidades dentro de uma obra diversificada. Por que essa mania de termos que definir um estilo único como forma de sermos mais autorais? Questiono tal raciocínio.
Só sei dizer que "Terapia de Risco" (2013) - "Side Effects" - penúltimo filme de Soderbergh recém-estreado aqui no Brasil, é um exemplo muito bem acabado dos múltiplos talentos e qualidades do diretor. Drama denúncia num nível macro e um thriller de suspense, numa perspectiva micro, fiel à linhagem hitchcockiana de mocinhas-vilãs, ou vilãs-mocinhas, à la "Marnie", "Terapia de Risco" consegue compor, em camadas, a realidade hiper-mega-capitalista da indústria farmacêutica dos anti-depressivos com a impotência do indivíduo contemporâneo diante de sua realidade, diante do esforço de elaborá-la, de superar as frustrações e garantir um mínimo de satisfação sem que, para isso, seja obrigatório fazermos um pacto faustiano com a eterna juventude, o eterno prazer, a alegria agora e para sempre. Sem custo e sem preço.
Quem não toma o seu Prozac, não fuma sua maconha ou não bebe o seu whisky, que atire a primeira pedra.
Ah, e por favor, Soderbergh, reconsidere voltar a filmar, nem que seja só pra televisão...
Marcadores:
catherine zeta-jones,
cinema,
cinema americano,
cinema independente,
eterno retorno,
filmes,
films,
filosofia,
hollywood,
jude law,
movies,
nietzsche,
rooney mara,
side effects,
steven soderbergh,
terapia de risco
sábado, 18 de maio de 2013
o domínio dos diálogos...
![]() |
| Cartaz de "Dazed and Confused" (1993), filme de Richard Linklater e um dos favoritos de Quentin Tarantino. |
![]() |
| Cenas do filme "Dazed and Confused" (1993): éramos todos tão jovens... conseguem reconhecer todos os atores? Prestem atenção no Ben Affleck... novo, novo... |
Meu primeiro contato com a obra de Linklater foi em 1995, com "Antes do Amanhecer", pelo qual o diretor recebeu o Urso de Prata de melhor direção no Festival de Berlim daquele ano. 9 anos depois, Linklater filmou "Antes do Anoitecer" (2004), continuação do filme de 1995, retratando exatamente os 9 anos de separação do casal protagonista do filme original - vividos por Ethan Hawke e Julie Delpy - que se encontraram, pela primeira vez, no trem em Viena, e se reencontram quase uma década depois em Paris.
Perdi a conta de quantas vezes vi e revi o amanhecer e o anoitecer. Os diálogos são tão bem construídos, tão ricos e cheios de nuances que assistir a partes separadas já dá pano pra manga; podemos dali tirar inúmeros elementos aproximativos da experiência e do repertório daqueles dois jovens e transferi-los para nossas vidas. É cativante.
"Dazed and Confused" retrata uma porção de personagens (todos eles representados por atores jovens à época, mas que, algum tempo depois, estouraram na carreira, como Ben Affleck, Milla Jovovich, Matthew McConaughey, Parker Posey, Jason London). Em comum com os trabalhos posteriores de Linklater, o plot centrado num período curto e definido de tempo; no caso, o dia 28 de maio de 1976, fim das aulas e início das férias de verão numa high school de Austin, Texas. Os veteranos se formam - e devem decidir o que fazer da vida - e os novatos preparam-se para ingressar no "colegial". Vários ritos de passagem idiotas, espécies de trotes bem americanos (e imbecis) são aplicados pelos veteranos nos calouros. Os meninos são perseguidos para levarem uma sova de taco de cricket na bunda (paddle), enquanto as meninas têm que se humilhar diante das seniors, usando chupetas, deitando no chão e deixando-se lambuzar por ovos, farinha, ketchup. Além de serem forçadas a fazer pedidos de casamento aos jovens veteranos.
Ao longo dos pequenos atos de violência iniciática, os jovens vão interagindo, se conhecendo, trocando suas expectativas sobre o futuro, seus medos; veteranos se reconhecem nos "bichos", e o que todos querem, ao final daquele dia, é terem uma boa balada, uma noitada inesquecível - beber muito, fumar maconha, beijar, enfim, just some big fun.
O que provavelmente encantou Tarantino no filme foram elementos que ele próprio se apropria e insere em seus filmes da cultura americana pop - primeiro, a trilha sonora, essencial nas obras do realizador (no caso de "Dazed and Confused", nome tirado de uma canção regravada pelo Led Zeppelin, e uma trilha toda anos 70 com a nata do rock da época - Deep Purple, ZZ Top, Nazareth, KISS, Black Sabbath, Foghat, Alice Cooper, Aerosmith, Ted Nugent). Segundo, a cultura americana dos anos 70; e, terceiro, a antropologia característica da cultura norte-americana, um país com frescor, porém muito violento, tacanho em seus rituais de passagem da adolescência, conservador e, ao mesmo tempo, gerador de uma grande força transgressora.
No caso específico de Linklater, o que mais me encanta é a maneira como ele constrói os diálogos. Não há truques ou maneirismos. A impressão causada é a de que há um grande esmero na construção de sequências com ritmo e diálogos afiados, criando conflitos logo desmanchados, criando pequenas grandes reflexões, historietas de amor, um encadeamento que cresce e toma corpo até chegarmos ao final mais dazed do que confused, encantados com as características de cada personagem, para o bem ou para o mal. Sabendo das idiossincrasias de casa um. E o que aquele momento - e nunca o futuro - exatamente aquele momento de fim de ciclo, de pura diversão - significou e foi aproveitado por cada um daqueles jovens.
Não sei como ranquear "Dazed and Confused", como o protagonista de "Alta Fidelidade", interpretado por John Cusack, costumava fazer. O que posso afirmar é que esse filme, mais o duo antes do amanhecer e anoitecer, ocupam um cômodo afetivo em mim. São filmes que deixam lembranças, a qualquer momento passíveis de serem revividas, incluindo um sorriso de afeto ou uma lágrima de saudade.
Marcadores:
antropologia,
arte,
ccbb,
cinema,
cinema americano,
cultura americana,
dazed and confused,
diálogos,
diretor,
filmes,
films,
hangout movie,
high school,
movies,
richard linklater,
soundtrack,
tarantino,
trilha sonora
Assinar:
Postagens (Atom)






















































