Em uma entrevista concedida à NBC, o diretor norte-americano Steven Soderbergh, ao falar de seu mais recente - e parece que último - trabalho, um melodrama biográfico sobre o pianista super kitsch Liberace, declarou ver uma semelhança entre este e um de seus primeiros filmes, o premiado "Sexo, Mentiras e Videotapes", vencedor da Palma de Ouro em Cannes há 24 anos. De acordo com Soderbergh, "Sexo, Mentiras..." levou 36 dias para ser rodado, enquanto "Atrás do Candelabro", o filme sobre Liberace, apenas 30. Ser conciso, rápido, seria uma de suas características; ele não saberia fazer diferente, esticando a produção e a pós-produção de um longa ao máximo a fim de obter uma suposta obra-prima.
Sabe-se que Soderbergh, além de rápido, é multi-funcional no cinema: ele escreve, fotografa, monta e dirige. Sabe-se também que conduziu sua carreira entre a vertente mainstream de Hollywood e o cinema indie. Fez blockbusters e filmes-cabeça. E, nesse exato momento, quando afirma não querer mais trabalhar para a indústria cinematográfica norte-americana, quando seu "Atrás do Candelabro", também na competição oficial de Cannes neste ano - mais um ponto em comum com "Sexo, Mentiras,..." - será exibido diretamente no canal a cabo HBO no dia 26 de maio, não deixo de associar a trajetória de Soderbergh ao princípio nietzscheano do "eterno retorno". Porque a primeira impressão passada pela trajetória filmográfica de Soderbergh é a de que ele cumpriu um grande ciclo, retornando ao ponto de origem, como na metáfora da cobra que morde o rabo e fecha um círculo em si mesma. Como se houvesse uma contradição, uma espécie de polarização entre suas realizações hollywoodianas tipo "Ellen Brokovich" e a franquia "Ocean's Eleven" e filmes como "Bubble" ou "Confissões de uma Garota de Programa".
Indo mais a fundo, não só o conceito de "eterno retorno" em Nietzsche não tem tal caráter cíclico e tenso entre pólos como também a obra de Soderbergh é muito mais complementar e diversa do que irreconciliável entre suas partes. Penso que o mal-entendido se configura nos 2 casos. Eterno retorno significa multiplicidade de realidades, coexistentes, e não ciclos que vão e vem. Paralelamente, um realizador que joga em várias posições criativas e faz filmes de estilos tão diversos, com orçamentos tão díspares e para públicos tão diferentes é, a meu ver, um criador de múltiplas realidades dentro de uma obra diversificada. Por que essa mania de termos que definir um estilo único como forma de sermos mais autorais? Questiono tal raciocínio.
Só sei dizer que "Terapia de Risco" (2013) - "Side Effects" - penúltimo filme de Soderbergh recém-estreado aqui no Brasil, é um exemplo muito bem acabado dos múltiplos talentos e qualidades do diretor. Drama denúncia num nível macro e um thriller de suspense, numa perspectiva micro, fiel à linhagem hitchcockiana de mocinhas-vilãs, ou vilãs-mocinhas, à la "Marnie", "Terapia de Risco" consegue compor, em camadas, a realidade hiper-mega-capitalista da indústria farmacêutica dos anti-depressivos com a impotência do indivíduo contemporâneo diante de sua realidade, diante do esforço de elaborá-la, de superar as frustrações e garantir um mínimo de satisfação sem que, para isso, seja obrigatório fazermos um pacto faustiano com a eterna juventude, o eterno prazer, a alegria agora e para sempre. Sem custo e sem preço.
Quem não toma o seu Prozac, não fuma sua maconha ou não bebe o seu whisky, que atire a primeira pedra.
Ah, e por favor, Soderbergh, reconsidere voltar a filmar, nem que seja só pra televisão...
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segunda-feira, 20 de maio de 2013
o princípio do eterno retorno...
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sábado, 18 de maio de 2013
o domínio dos diálogos...
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| Cartaz de "Dazed and Confused" (1993), filme de Richard Linklater e um dos favoritos de Quentin Tarantino. |
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| Cenas do filme "Dazed and Confused" (1993): éramos todos tão jovens... conseguem reconhecer todos os atores? Prestem atenção no Ben Affleck... novo, novo... |
Meu primeiro contato com a obra de Linklater foi em 1995, com "Antes do Amanhecer", pelo qual o diretor recebeu o Urso de Prata de melhor direção no Festival de Berlim daquele ano. 9 anos depois, Linklater filmou "Antes do Anoitecer" (2004), continuação do filme de 1995, retratando exatamente os 9 anos de separação do casal protagonista do filme original - vividos por Ethan Hawke e Julie Delpy - que se encontraram, pela primeira vez, no trem em Viena, e se reencontram quase uma década depois em Paris.
Perdi a conta de quantas vezes vi e revi o amanhecer e o anoitecer. Os diálogos são tão bem construídos, tão ricos e cheios de nuances que assistir a partes separadas já dá pano pra manga; podemos dali tirar inúmeros elementos aproximativos da experiência e do repertório daqueles dois jovens e transferi-los para nossas vidas. É cativante.
"Dazed and Confused" retrata uma porção de personagens (todos eles representados por atores jovens à época, mas que, algum tempo depois, estouraram na carreira, como Ben Affleck, Milla Jovovich, Matthew McConaughey, Parker Posey, Jason London). Em comum com os trabalhos posteriores de Linklater, o plot centrado num período curto e definido de tempo; no caso, o dia 28 de maio de 1976, fim das aulas e início das férias de verão numa high school de Austin, Texas. Os veteranos se formam - e devem decidir o que fazer da vida - e os novatos preparam-se para ingressar no "colegial". Vários ritos de passagem idiotas, espécies de trotes bem americanos (e imbecis) são aplicados pelos veteranos nos calouros. Os meninos são perseguidos para levarem uma sova de taco de cricket na bunda (paddle), enquanto as meninas têm que se humilhar diante das seniors, usando chupetas, deitando no chão e deixando-se lambuzar por ovos, farinha, ketchup. Além de serem forçadas a fazer pedidos de casamento aos jovens veteranos.
Ao longo dos pequenos atos de violência iniciática, os jovens vão interagindo, se conhecendo, trocando suas expectativas sobre o futuro, seus medos; veteranos se reconhecem nos "bichos", e o que todos querem, ao final daquele dia, é terem uma boa balada, uma noitada inesquecível - beber muito, fumar maconha, beijar, enfim, just some big fun.
O que provavelmente encantou Tarantino no filme foram elementos que ele próprio se apropria e insere em seus filmes da cultura americana pop - primeiro, a trilha sonora, essencial nas obras do realizador (no caso de "Dazed and Confused", nome tirado de uma canção regravada pelo Led Zeppelin, e uma trilha toda anos 70 com a nata do rock da época - Deep Purple, ZZ Top, Nazareth, KISS, Black Sabbath, Foghat, Alice Cooper, Aerosmith, Ted Nugent). Segundo, a cultura americana dos anos 70; e, terceiro, a antropologia característica da cultura norte-americana, um país com frescor, porém muito violento, tacanho em seus rituais de passagem da adolescência, conservador e, ao mesmo tempo, gerador de uma grande força transgressora.
No caso específico de Linklater, o que mais me encanta é a maneira como ele constrói os diálogos. Não há truques ou maneirismos. A impressão causada é a de que há um grande esmero na construção de sequências com ritmo e diálogos afiados, criando conflitos logo desmanchados, criando pequenas grandes reflexões, historietas de amor, um encadeamento que cresce e toma corpo até chegarmos ao final mais dazed do que confused, encantados com as características de cada personagem, para o bem ou para o mal. Sabendo das idiossincrasias de casa um. E o que aquele momento - e nunca o futuro - exatamente aquele momento de fim de ciclo, de pura diversão - significou e foi aproveitado por cada um daqueles jovens.
Não sei como ranquear "Dazed and Confused", como o protagonista de "Alta Fidelidade", interpretado por John Cusack, costumava fazer. O que posso afirmar é que esse filme, mais o duo antes do amanhecer e anoitecer, ocupam um cômodo afetivo em mim. São filmes que deixam lembranças, a qualquer momento passíveis de serem revividas, incluindo um sorriso de afeto ou uma lágrima de saudade.
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